No imaginário brasileiro existem dois grandes sonhos: o da casa própria e o de abrir um comércio e acreditar que, a partir daquele momento, será feliz para sempre, livre do jugo patronal. Comprar um imóvel no Brasil é difícil. Mas, em muitos casos, pode ser mais simples do que abrir uma pequena loja de doces na rua e fazê-la crescer.
Existe uma espécie de fé no empreendedorismo. A ideia de que basta ter coragem, abrir as portas e esperar que os clientes apareçam. Só que uma empresa, qualquer que seja sua atividade, exige muito mais do que vontade.
É preciso ter vocação para aquilo que se pretende fazer. É necessário saber conversar com o cliente, entender suas necessidades, conhecer o mercado e, principalmente, compreender que os empregados também fazem parte da equação.
Vivemos em uma época em que a tecnologia deveria aproximar empresas e consumidores. Entretanto, em muitos casos, conseguir falar com uma pessoa ao telefone tornou-se sinônimo de exclusividade. O que antes era básico hoje parece um luxo. Isso revela um problema maior: muitas empresas investem em tecnologia, sistemas e processos, mas esquecem que o cliente continua sendo uma pessoa.
E existe outro elemento frequentemente negligenciado: planejamento. Planejar é chato. Exige parar, analisar números, estabelecer metas, avaliar riscos e decidir onde a empresa pretende chegar. Mas é justamente essa parte pouco glamourosa que pode separar uma ideia de um negócio.
Uma empresa deveria reservar, pelo menos uma vez por ano, um momento para olhar para o período seguinte e estabelecer prioridades. Não se trata de prever o futuro com precisão, mas de construir uma direção.
Naturalmente, planos podem e devem ser ajustados quando a realidade muda. O problema está em mudar de direção o tempo todo sem saber por quê. Adaptabilidade é gestão; improvisação permanente é outra coisa. Empreender não deveria ser um ato de fé no sobrenatural. É um exercício de planejamento, execução, relacionamento, controle e capacidade de adaptação.
O sonho de ser dono do próprio negócio pode ser legítimo. Mas transformar esse sonho em uma empresa sustentável exige algo muito menos romântico: trabalho, método e disciplina. No fim, abrir uma empresa pode ser relativamente fácil. Difícil mesmo é fazê-la sobreviver.
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