O Brasil chegou a uma situação curiosa. O desemprego está em 5,3%, o rendimento médio real do trabalhador alcançou R$ 3.777 e existem 25,4 milhões de empresas ativas no país. Ao mesmo tempo, a economia começa a mostrar sinais de desaceleração e o crédito continua caro.
A Selic caiu para 13,75% ao ano em setembro, no quinto corte consecutivo. É um movimento importante, mas ainda insuficiente para alterar rapidamente o custo do dinheiro na economia. O próprio Banco Central aponta desaceleração do crescimento do crédito bancário e redução nas modalidades de prazo mais longo, justamente aquelas mais sensíveis à política monetária. Isso revela um problema que vai além da taxa básica de juros.
Para uma empresa, principalmente uma pequena, não importa apenas quanto custa o dinheiro na decisão do Copom. Importa quanto custa o capital de giro, quanto custa antecipar um recebível, financiar uma máquina ou atravessar alguns meses de vendas fracas. E aqui aparece a contradição brasileira: estamos criando empregos e empresas, mas ainda temos dificuldade para transformar esses dois movimentos em aumento consistente de produtividade.
O empreendedorismo é um bom exemplo. Em julho, 485 mil empresas foram abertas no país. O número mostra dinamismo, mas abrir uma empresa não significa necessariamente construir um negócio capaz de investir, contratar e crescer. Uma economia saudável precisa fazer o empreendedor sair da lógica da sobrevivência e entrar na lógica da expansão.
O mesmo vale para o mercado de trabalho. O desemprego baixo é relevante, mas o próprio Banco Central observa que o crescimento da ocupação vem desacelerando e que os rendimentos também perderam ritmo na margem. A questão, portanto, não é apenas quantas pessoas estão trabalhando, mas quanto valor cada trabalhador consegue gerar e quanto dessa produtividade se transforma em renda.
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O desafio brasileiro está justamente nessa conexão. Juros menores ajudam, mas precisam chegar ao crédito. Emprego é fundamental, mas precisa vir acompanhado de produtividade e renda. E empreender é importante, mas uma empresa precisa ter condições de sobreviver, investir e ganhar escala. Caso contrário, podemos comemorar bons indicadores isolados enquanto a economia continua presa a um modelo de baixo crescimento.
O Brasil não precisa apenas de mais empregos ou de mais empresas. Precisa criar as condições para que trabalho gere renda, renda gere demanda, demanda estimule produção e produção gere produtividade. É nessa circulação que o crescimento econômico deixa de ser apenas estatística e começa a aparecer na vida real.