Uma professora de Suzano que há três meses acorda às quatro da manhã e não consegue voltar a dormir. Uma comerciante de Mogi das Cruzes que atribuiu o cansaço constante ao ritmo da loja, até descobrir, aos 49 anos, que não era só trabalho.
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Uma funcionária pública de Itaquaquecetuba que começou a chorar sem motivo aparente durante reuniões e passou seis meses achando que era depressão.
As histórias se repetem em consultórios de toda a região metropolitana, e têm um ponto em comum que poucos reconhecem no primeiro momento: a menopausa.
A imagem pública da menopausa costuma se resumir às ondas de calor, os chamados fogachos. Essa é, de fato, uma das queixas mais frequentes, mas está longe de descrever a realidade dessa transição.
A queda dos hormônios ovarianos reorganiza o sono, o humor, a memória, o metabolismo e a libido ao mesmo tempo, e o resultado aparece na rotina inteira da mulher. Trabalho, relacionamentos, disposição para atividades simples, tudo é afetado.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que cerca de 17 milhões de brasileiras estão no climatério, a faixa que vai dos 40 aos 65 anos e engloba a menopausa.
Desse total, aproximadamente 9,2 milhões já passaram oficialmente pela última menstruação. A idade média da menopausa no Brasil é de 48 anos, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.
O que acontece quando os hormônios despencam
A menopausa é o marco que indica o fim da vida reprodutiva. O diagnóstico só é feito depois de 12 meses consecutivos sem menstruação, e o processo biológico por trás dessa data envolve a redução acentuada de dois hormônios produzidos pelos ovários: o estradiol, principal estrogênio feminino, e a progesterona. Essa queda não age de forma pontual.
O estrogênio participa da regulação do sono, do humor, da memória, do metabolismo e da saúde cardiovascular, e quando cai, todos esses sistemas sentem.
Antes da menopausa, há o climatério, período de transição que pode começar a partir dos 40 anos e durar vários anos. É nessa fase, chamada de perimenopausa, que os ciclos menstruais começam a ficar irregulares e que aparecem os primeiros sintomas.
Muitas mulheres atribuem essas primeiras mudanças ao estresse, à rotina pesada ou ao envelhecimento natural, e só procuram ajuda quando os sintomas já comprometem o dia a dia.
Um levantamento do Instituto Esfera de Estudos e Inovação, divulgado em 2026, estimou que 29 milhões de brasileiras estão em fase climatérica ou pós-menopausa, com base no Censo 2022 do IBGE.
Dessas, 63% são economicamente ativas, compondo uma das faixas mais qualificadas da força de trabalho no país. A prevalência de sintomas atinge 87,9% dessa população, segundo o estudo. As perdas de produtividade por afastamentos ligados aos sintomas climatéricos ultrapassam R$ 2 bilhões por ano.
Sono interrompido, noite após noite
A queixa mais silenciosa e, ao mesmo tempo, uma das mais devastadoras da menopausa é a perda da qualidade do sono. A insônia, que antes da menopausa afeta cerca de 30% das mulheres, sobe para 60% na pós-menopausa, segundo dados do Instituto do Sono, ligado à Unifesp.
O salto praticamente dobra o problema em poucos anos, e muitas pacientes chegam ao consultório exaustas, depois de meses sem dormir uma noite inteira.
Os fogachos noturnos explicam parte dessa alteração. A onda de calor que acomete a mulher durante o dia também acontece à noite, geralmente acompanhada de suor intenso, palpitações e despertar abrupto.
A mulher acorda encharcada, precisa trocar de roupa, e quando finalmente volta a se deitar, o sono não retorna com a mesma profundidade. Esse padrão se repete várias vezes ao longo da madrugada.
Há também um componente hormonal direto. O estrogênio e a progesterona participam da regulação do relógio biológico, e a queda desses hormônios altera a arquitetura do sono.
O resultado é menor tempo em sono profundo, despertares mais frequentes e sensação de cansaço mesmo depois de oito horas na cama. A apneia do sono, antes mais comum em homens, também se torna mais frequente em mulheres na pós-menopausa, o que agrava ainda mais o quadro.
Humor, ansiedade e o risco de depressão
A conexão entre menopausa e saúde mental é documentada há décadas, mas raramente aparece nas conversas cotidianas sobre o tema. O estrogênio atua na regulação de neurotransmissores como a serotonina, a dopamina e a noradrenalina, todos envolvidos na estabilidade do humor.
Quando o hormônio cai, o cérebro perde parte desse suporte químico, e o resultado pode se manifestar como irritabilidade, ansiedade, tristeza sem motivo aparente ou crises de choro.
Uma revisão sistemática publicada no SAGE Open Medicine identificou que mulheres na perimenopausa têm risco mais do que dobrado de desenvolver depressão em comparação com o período anterior.
O estudo Penn Ovarian Aging Study, acompanhado por mais de uma década, registrou aumento de quatro vezes na incidência de depressão em mulheres sem histórico prévio da doença durante a transição menopausal.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia, na Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério publicada em 2024, apontou que o risco de hipertensão arterial também cresce nas mulheres após os 65 anos, superando o registrado em homens da mesma faixa.
A combinação entre alterações de humor, sono fragmentado e aumento do risco cardiovascular cria um quadro que exige atenção médica especializada, não paciência ou resignação.
A rotina que não cabe mais nos horários de sempre
Para mulheres que trabalham fora de casa, cuidam de filhos, pais idosos, ou acumulam essas funções, a soma dos sintomas pode tornar a rotina insustentável.
A pesquisa da Reds Research, vinculada ao grupo HSR Specialist Researchers, constatou que 82% das brasileiras apresentam sintomas durante a menopausa, mas apenas 12% fazem terapia de reposição hormonal. O percentual é inferior ao observado em países europeus, onde chega a 20%.
O levantamento conduzido pelo Ipsos a pedido da Bayer, com 800 mulheres brasileiras, revelou que 44% das participantes com sintomas não realizam nenhum acompanhamento médico.
Entre as que justificaram não fazer reposição hormonal, o medo de desenvolver câncer aparece como principal razão, citado por 22% das entrevistadas. Ganho de peso (27%), câncer (20%) e risco cardiovascular (18%) também foram apontados como receios, mesmo em cenários em que o tratamento poderia ser seguro.
Esses medos têm origem em estudos dos anos 2000 que associaram a terapia hormonal a riscos elevados, conclusões posteriormente revistas. A Sociedade Norte-Americana de Menopausa, em atualização de 2022, reafirmou que a reposição hormonal é o tratamento mais efetivo para os sintomas vasomotores e que os riscos são raros e manejáveis quando a indicação é feita com critério.
Conforme uma endocrinologista especialista em menopausa de Goiânia, a maior parte das pacientes chega ao consultório depois de meses ou anos convivendo com os sintomas, tentando explicar o cansaço pelo excesso de trabalho ou as crises de humor por problemas pessoais.
Reconhecer que os sinais têm origem hormonal é o primeiro passo para um tratamento eficaz, que pode combinar reposição hormonal, ajustes no estilo de vida e, quando necessário, alternativas não hormonais.
O que avaliar antes de escolher o tratamento
A decisão pelo tipo de tratamento exige avaliação individualizada. A reposição hormonal, feita com estrogênio isolado ou combinado com progesterona, é a opção mais estudada e mais eficaz para sintomas vasomotores e genitais.
Em mulheres com útero preservado, a progesterona é associada para proteger o endométrio. A via de administração pode variar, incluindo comprimidos, adesivos transdérmicos, géis e implantes, e cada forma tem indicações específicas.
Mulheres com histórico pessoal de câncer de mama, trombose venosa profunda ou doença hepática ativa podem ter contraindicação para a reposição hormonal clássica.
Nesses casos, existem alternativas não hormonais com evidência científica, como antidepressivos em doses específicas, gabapentina e, mais recentemente, a molécula fezolinetante, aprovada em 2023 nos Estados Unidos para sintomas vasomotores.
O acompanhamento também deve contemplar a saúde óssea, a saúde cardiovascular, o controle de peso e a avaliação do risco de diabetes tipo 2, que sobe na pós-menopausa pelo aumento da resistência insulínica.
Uma meta-análise de 119 estudos apontou prevalência de 37% de síndrome metabólica entre mulheres na pós-menopausa, e o dado reforça a necessidade de um cuidado amplo, que vá além do controle dos sintomas imediatos.
Na região metropolitana do Alto Tietê, mulheres que identificam sinais de perimenopausa ou já estão na pós-menopausa podem procurar endocrinologistas ou ginecologistas com experiência no tratamento do climatério.
A escolha do especialista costuma fazer diferença no resultado. Médicos com atualização em protocolos recentes tendem a discutir todas as opções disponíveis, explicar riscos e benefícios de cada uma, e acompanhar a paciente ao longo do tempo para ajustar doses e vias de administração conforme a resposta clínica.
Quando buscar ajuda
Segundo Dra. Camila Farias, endocrinologista para menopausa em Goiânia, mulheres entre 40 e 55 anos que apresentem alterações menstruais persistentes, fogachos frequentes, insônia nova, oscilações de humor fora do padrão, queda significativa da libido, ressecamento vaginal ou sensação de cansaço que não melhora com descanso devem procurar avaliação médica.
O diagnóstico precoce da perimenopausa permite intervenções mais eficazes, e esperar pelo diagnóstico formal de menopausa, que exige 12 meses sem menstruação, significa perder parte do período em que o tratamento age melhor.
O estudo publicado no periódico Climacteric mostrou que a maioria das brasileiras que inicia a terapia hormonal abandona o tratamento em cerca de oito meses, muitas vezes por falta de acompanhamento adequado ou por efeitos adversos não discutidos com o médico.
A continuidade do cuidado é tão importante quanto a prescrição inicial, e a relação médico-paciente estabelecida em consultas regulares costuma ser o fator que separa quem persiste no tratamento de quem desiste.
A menopausa não é uma doença, é uma fase fisiológica. Mas isso não significa que a mulher deva suportar em silêncio sintomas que comprometem o sono, o humor, a produtividade no trabalho e a qualidade dos relacionamentos.
Reconhecer que existem tratamentos eficazes, conversar com um profissional qualificado e acompanhar de perto a resposta ao longo do tempo são atitudes que transformam essa transição em uma etapa administrável, e não em um período de sofrimento calado.



