quarta-feira, 22 abr, 2026

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Sintomas de refluxo podem se confundir com problemas cardíacos e respiratórios

Queimação no peito, tosse crônica e sensação de pressão no tórax fazem pacientes procurarem prontos-socorros pensando em infarto ou bronquite; em muitos casos, o diagnóstico correto estava no aparelho digestivo
Da Redação

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Ao chegar à emergência de um pronto atendimento em Mogi das Cruzes, a recepcionista ouve com frequência a mesma descrição: dor no peito, aperto na região do coração, falta de ar, suor frio.

O paciente, às vezes com menos de 40 anos, é imediatamente encaminhado para avaliação cardiológica. Eletrocardiograma, dosagem de enzimas, monitorização.

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Ao fim do plantão, o cardiologista libera o quadro com uma observação no prontuário que se tornou rotina nas UPAs do Alto Tietê: dor torácica de provável origem gastroesofágica.

A cena se repete em Suzano, Poá, Itaquaquecetuba, Arujá. O refluxo gastroesofágico, condição digestiva crônica que atinge cerca de 12% dos brasileiros, segundo revisão publicada no Brazilian Journal of Health Review em 2021, produz sintomas que imitam com precisão incômoda as manifestações de duas das principais causas de procura por emergência no país: o infarto agudo do miocárdio e as doenças respiratórias crônicas.

O resultado é um circuito de consultas, exames e tratamentos que, em parte dos casos, só se resolve quando o paciente finalmente passa pela avaliação de um gastroenterologista ou de um cirurgião especializado em aparelho digestivo.

A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde descreve essa sobreposição de forma direta em sua página sobre a condição: entre os sintomas do refluxo estão a azia, a queimação que sobe do estômago para a garganta e a “dor torácica intensa, que pode ser confundida com a dor da angina e do infarto do miocárdio”. Ao lado desses, figuram também tosse seca, pneumonias de repetição, bronquite e asma.

O mapa dos sintomas que enganam

O refluxo gastroesofágico acontece quando o conteúdo ácido do estômago retorna para o esôfago por uma falha no esfíncter esofágico inferior, a válvula que deveria manter o alimento onde ele precisa ficar. Quando esse refluxo se repete várias vezes ao dia, a mucosa do esôfago inflama. E a partir daí, o problema deixa de ser apenas digestivo.

A queimação atrás do esterno, tecnicamente chamada de pirose, é o sintoma clássico e também o mais enganoso. A dor se localiza na mesma região que a dor da angina, pode irradiar para o pescoço e para as costas, e costuma piorar quando o paciente se deita.

Em um estudo populacional conduzido em 22 cidades brasileiras com 13.959 entrevistados, publicado nos Arquivos de Gastroenterologia, a azia foi relatada por 11,9% dos adultos, e o quadro completo de doença do refluxo gastroesofágico apareceu em 7,7% da amostra. A prevalência cresce depois dos 35 anos e é maior entre mulheres.

A diferença entre a dor do refluxo e a dor cardíaca existe, mas não é óbvia para quem está sentindo. A dor do infarto ou da angina costuma aparecer ou piorar durante esforço físico e ceder no repouso.

A dor do refluxo faz o caminho inverso: costuma piorar quando o paciente se deita, depois das refeições, em posição que favoreça o retorno do ácido. Só que essa regra não é absoluta, e muitos pacientes apresentam os dois padrões misturados, o que explica por que nem mesmo médicos experientes descartam a origem cardíaca sem uma bateria mínima de exames.

A confusão respiratória segue lógica parecida. Quando o conteúdo ácido sobe até a laringe e as vias aéreas superiores, provoca tosse crônica, rouquidão, pigarro constante e crises de broncoespasmo que se confundem com asma.

Uma revisão publicada nos Arquivos de Gastroenterologia em 2014 aponta que, entre pacientes com sintomas atípicos como tosse crônica, rouquidão e sensação de nó na garganta, a prevalência de doença do refluxo chega a 63,4% quando o diagnóstico é feito por combinação de endoscopia, pHmetria e impedância esofágica.

Quando a emergência é cardiológica e a doença é digestiva

Dados da Santa Casa de Maceió, em material divulgado pelo próprio hospital, descrevem um padrão que se repete em pronto-socorros de todo o país: pacientes chegam à emergência cardiológica com queimação torácica intensa e só depois de horas de investigação descobrem que o quadro é, na verdade, doença do refluxo.

O problema não está no pronto-socorro, que faz o que precisa ser feito ao excluir causas potencialmente letais. O problema está no tempo, no custo emocional e na sequência de retornos até que o paciente chegue ao especialista certo.

Em cidades da região do Alto Tietê, onde a rede pública e a rede suplementar convivem com demanda represada e filas para especialistas, esse percurso tende a ser ainda mais longo.

O paciente faz o eletrocardiograma, recebe alta com a dor controlada, volta para casa, repete a queimação três dias depois, retorna à emergência, e só meses depois de uma jornada fragmentada é encaminhado para endoscopia digestiva alta. Quando o diagnóstico finalmente aparece, costuma vir acompanhado de esofagite, hérnia de hiato ou ambos.

Quem já convive com episódios frequentes de dor forte na boca do estômago sabe que o quadro raramente se encaixa em uma categoria única. Pode ser gastrite, pode ser úlcera, pode ser refluxo, pode ser a combinação desses fatores.

E é justamente essa sobreposição que torna o diagnóstico diferencial uma etapa indispensável antes de qualquer tratamento prolongado com inibidores de bomba de próton.

O que diferencia o refluxo das outras causas de dor torácica

Alguns sinais ajudam a separar, ainda que de forma imperfeita, o refluxo das causas cardíacas e pulmonares de dor no peito. O material da Biblioteca Virtual em Saúde reforça que a queimação do refluxo costuma nascer na região epigástrica, o popular “boca do estômago”, e subir em direção à garganta, às vezes acompanhada de gosto ácido ou amargo na boca.

A dor da angina, por outro lado, é descrita como aperto, peso ou pressão, em geral no centro do peito, com irradiação para o braço esquerdo, mandíbula ou dorso, e se acompanha de sudorese e falta de ar.

Na prática, a sobreposição é tanta que nenhum médico sério diagnostica refluxo por exclusão clínica apenas. A investigação adequada combina endoscopia digestiva alta, manometria esofágica e, em casos selecionados, pHmetria de 24 horas.

Na experiência de um cirurgião do aparelho digestivo em Goiânia, Dr. Thiago Tredicci, que acompanha pacientes com quadros refratários ao tratamento clínico e atua como preceptor da residência médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas da UFG, o erro mais comum não está na escolha do exame, mas no atraso até que o paciente seja encaminhado ao especialista certo.

A combinação de sintomas digestivos, cardíacos e respiratórios também é a principal responsável pelo uso prolongado e muitas vezes indiscriminado de omeprazol e similares sem investigação diagnóstica formal.

O paciente sente melhora parcial, entende que “era gastrite mesmo” e adia por meses ou anos a endoscopia. Quando faz o exame, já apresenta esofagite grau C ou D, ou esôfago de Barrett, uma lesão pré neoplásica que exige acompanhamento contínuo.

Tratamento clínico, mudança de hábitos e a decisão cirúrgica

Nem todo paciente com refluxo precisa de cirurgia. A maioria responde bem ao tratamento clínico, que combina medicamentos inibidores da secreção ácida, perda de peso quando há sobrepeso, elevação da cabeceira da cama, fracionamento das refeições e redução de gordura, café, álcool e alimentos irritativos. O Ministério da Saúde reforça ainda a importância de não se deitar logo após comer e de praticar atividade física regular.

Existe, contudo, um grupo de pacientes em que o tratamento clínico não resolve. Pessoas com hérnia de hiato volumosa, com refluxo que persiste apesar do uso correto das medicações, com esofagite recorrente ou com complicações respiratórias associadas ao refluxo costumam ser candidatas à cirurgia antirrefluxo, em geral a fundoplicatura, realizada por videolaparoscopia.

De acordo com os melhores cirurgiões do aparelho digestivo de Goiânia, a decisão cirúrgica não depende apenas da intensidade dos sintomas, mas também do impacto do refluxo sobre o esôfago ao longo dos anos.

Pacientes jovens com hérnia de hiato e dependência crônica de medicação, ou pacientes com episódios recorrentes de pneumonia de repetição atribuíveis ao refluxo, costumam se beneficiar mais de uma resolução cirúrgica definitiva do que de décadas de tratamento medicamentoso.

O peso da decisão, porém, fica todo na avaliação individual. A cirurgia antirrefluxo moderna, feita por videolaparoscopia ou por via robótica em centros habilitados, tem taxa de complicação baixa e recuperação rápida, mas exige seleção cuidadosa do paciente.

Sem exames funcionais adequados, o procedimento pode resolver o sintoma e criar outro, como dificuldade persistente para engolir.

A importância do encaminhamento correto

A mensagem para quem mora no Alto Tietê e convive com queimação torácica frequente, tosse crônica sem causa respiratória definida, rouquidão persistente ou crises recorrentes que imitam infarto é direta: investigar é obrigatório.

O eletrocardiograma normal não fecha o diagnóstico. A radiografia de tórax limpa não fecha o diagnóstico. O alívio parcial com medicação de prateleira não fecha o diagnóstico.

A investigação passa por um gastroenterologista que conheça o repertório completo do aparelho digestivo superior e, quando necessário, pelo cirurgião que atua na mesma linha.

Em regiões onde o acesso ao especialista demora, a alternativa costuma ser procurar serviços de referência em outros estados, prática que se tornou comum no fluxo de pacientes do interior paulista rumo a polos médicos consolidados, como o de Goiânia, que concentra cirurgiões com formação em grandes centros nacionais e internacionais.

O refluxo gastroesofágico não é doença banal. A prevalência de 12% apontada em revisões brasileiras coloca a condição entre as mais comuns na prática clínica, mas os dados do estudo multicêntrico também mostram que o quadro tende a piorar com a idade e a se acumular com comorbidades como obesidade, hipertensão e diabetes.

Essas mesmas comorbidades aumentam o risco cardiovascular, o que fecha um ciclo perigoso: o paciente, quando finalmente apresenta dor torácica, pode estar de fato em risco cardíaco, em quadro de refluxo agudo, ou em ambos ao mesmo tempo.

Diante de qualquer dor no peito de causa não explicada, a conduta correta continua sendo procurar atendimento médico imediato. O diagnóstico refinado vem depois, com exames e especialista.

Confiar no próprio palpite é exatamente o comportamento que, ano após ano, faz pacientes com infarto em curso demorarem para procurar ajuda por acreditarem que “era só refluxo”, e faz pacientes com refluxo grave carregarem por anos um quadro que poderia ter sido resolvido em poucas semanas com a avaliação certa.

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