domingo, 09 ago, 2026

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Incêndio em Itaquá alerta para relação ‘indústria x residência’ no Alto Tietê

Incêndio em indústria de Itaquaquecetuba reacende debate sobre a proximidade entre fábricas e áreas residenciais no Alto Tietê
Felipe Alves

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As imagens das chamas consumindo uma indústria química em Itaquaquecetuba tomaram conta das redes sociais e chamaram a atenção de moradores do Alto Tietê na última terça-feira (4). O incêndio, que mobilizou uma força-tarefa do Corpo de Bombeiros, provocou explosões e levou à evacuação de empresas vizinhas, acendeu os holofotes a uma realidade cada vez mais presente na região: a proximidade entre grandes indústrias e áreas residenciais, resultado do avanço da urbanização ao longo das últimas décadas.

Empreendimentos que antes estavam em áreas mais afastadas, hoje dividem espaço, em muitos casos, com loteamentos, condomínios e bairros que cresceram ao redor dos parques industriais. O avanço da urbanização tornou mais frequente essa proximidade e trouxe um novo desafio para gestores públicos, empresas e órgãos de fiscalização: garantir que o desenvolvimento das cidades seja acompanhado por planejamento e medidas de segurança.

Os números ajudam a entender essa transformação. Segundo o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) Alto Tietê, cerca de 2 mil indústrias de transformação estão instaladas nos municípios atendidos pela entidade e o setor químico figura entre os cinco principais segmentos industriais. Levantamento da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) mostra um universo ainda maior: o Alto Tietê reúne cerca de 8 mil indústrias de transformação, sendo 2.040 em Itaquá e 1.945 em Mogi.

Ao mesmo tempo em que a atividade industrial aumentou, as cidades também cresceram. Dados do Censo 2022 mostram que a população do Alto Tietê passou de 1.441.760 habitantes em 2010 para 1.625.530 em 2022, um crescimento de 12,7%, o equivalente a quase 184 mil novos moradores.

Urbanização

Hoje, quem precisou se estabelecer nas proximidades de uma indústria, convive com o medo, mesmo que inconsciente, todos os dias. É o caso da consultora Anny Martins, moradora de Jundiapeba. Ela conta que o incêndio em Itaquá trouxe lembranças de um episódio vivido ainda na infância, quando um incêndio atingiu uma unidade da Suzano.

“Tenho muita preocupação porque moro muito perto da empresa. Quando era criança, houve um incêndio e meu pai tirou toda a família de casa. Desde então, sempre que acontece um caso como esse, volta aquele medo de que um acidente possa atingir o bairro”, relata.

Um volume de indústrias concentrado numa mesma região não representa, por si só, um risco maior, avalia o engenheiro de segurança industrial Paulo de Tarso de Azevedo, professor da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), desde que normas e regulamentos sejam efetivamente cumpridos.

Especificamente sobre Itaquá, o especialista avalia que o município viveu simultaneamente um processo de desenvolvimento industrial e de forte adensamento urbano.

“Na engenharia de segurança, trabalhamos com o conceito de que o risco precisa ser reavaliado quando o entorno muda. Portanto, é necessário reavaliar continuamente o planejamento urbano e garantir que a infraestrutura de segurança acompanhe essa evolução territorial.”

Segundo a coordenadora da Câmara Especializada de Engenharia Química (CEEQ) do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), Nelize Maria de Almeida Coêlho, o armazenamento e o manuseio de líquidos inflamáveis e combustíveis em instalações industriais são disciplinados por um conjunto de normas técnicas que estabelecem critérios para projeto, instalação, operação, manutenção e gerenciamento de riscos. Para ela, porém, esses instrumentos não bastam sozinhos, pois “o atendimento às normas técnicas é fundamental para reduzir riscos e garantir a integridade das pessoas, das instalações e do meio ambiente”.

Quanto à convivência entre instalações industriais e áreas urbanas, a engenheira diz que o tema exige planejamento territorial, análise de riscos e observância da legislação urbanística e ambiental, além da adoção das medidas de segurança previstas nas normas aplicáveis.

Paulo de Tarso também esclarece que a empresa tem o dever de manter os riscos de suas atividades em níveis aceitáveis, enquanto cabe ao poder público controlar o uso e a ocupação do solo, evitando a implantação de usos sensíveis em áreas incompatíveis com os riscos existentes. Segundo ele, há a necessidade de ampliar, na região, a capacidade de licenciamento e, principalmente, de fiscalização.

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Ação

Um caso emblemático mostra como tragédias desse tipo costumam expor falhas que já eram conhecidas, mas não corrigidas: em fevereiro de 1984, um vazamento em duto de gasolina da Petrobras sob a favela da Vila Socó, em Cubatão, provocou um incêndio que matou pelo menos 93 pessoas, e revelou que leis de zoneamento industrial e política ambiental, já existentes na época, não eram cumpridas com rigor.

Só depois da tragédia, o Plano de Auxílio Mútuo do município, que existia desde 1978, mas não funcionava na prática, passou a operar de fato, e a prefeitura criou um plano de contingência, hoje referência na região. Um padrão que se repete, e que faz quem vive ao lado de uma indústria esperar e confiar que o poder público do Alto Tietê, por meio de câmaras e prefeituras, trate o tema com o rigor que o alerta desta semana pede.

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