sábado, 26 set, 2026

Entre afeto e medo, Tietê revela diferentes relações com moradores do Alto Tietê

Em Salesópolis, rio é cenário de pesca, banho e passeios; em Mogi das Cruzes, afeto convive com o risco das cheias, enquanto em Itaquaquecetuba moradores relatam prejuízos e medo
Eduarda Martins

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O Tietê que corre entre as mãos de uma criança durante uma pescaria em Salesópolis é o mesmo que, quilômetros adiante, invade casas e deixa famílias cercadas pela água em Itaquaquecetuba. O rio não muda de nome. Mas, no caminho, mudam as paisagens, as cidades e, principalmente, a relação de quem vive às suas margens.

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Em Salesópolis, onde nasce o Tietê, Carlos Henrique da Silva, 43 anos, estava com os dois filhos pescando quando encontrou a reportagem da GAZETA. Nascido e criado às margens do rio, ele aprendeu a enxergá-lo como parte da vida: “É um lugar de lazer, um lugar de sobrevivência para quem mora na região e vive da pesca.” Os filhos repetem a relação construída pelo pai: nadam, pescam e andam de barco.

É também assim que a guia de turismo e monitora ambiental Josiane Aparecida de Morais conhece o Tietê. Nascida em Salesópolis, ela nada no rio e, em quase todos os fins de semana, percorre suas águas de caiaque. “É possível pescar, andar de caiaque aqui e desfrutar de uma natureza que está aí”, conta. O contraste aparece quando recebe visitantes que conhecem apenas a imagem do Tietê poluído da capital: “A criança olha, fantasia e pergunta: ‘Tia, tem peixe?’. Não acredita que aquele ali é o rio Tietê.”

Alguns quilômetros adiante, em Mogi das Cruzes, o rio ainda desperta afeto, mas a convivência ganha outras camadas.

Moradora da Ponte Grande desde que nasceu, há 39 anos, a guia de turismo Débora de Souza Mello cresceu pescando às margens do Tietê. Quando parentes chegavam de Minas Gerais, ainda criança, ela fazia questão de apresentá-lo: “Vem cá que eu vou levar vocês pra conhecer o rio Tietê”. Hoje, transformou essa memória em profissão e realiza passeios para estimular um novo olhar sobre o rio.

Mas o Tietê que representa pertencimento também assusta quando transborda. Nas últimas chuvas, Débora quase não conseguiu retirar o carro da garagem e viu casas do bairro serem tomadas pela água. “A gente não estava preparado e ficou surpreso”, revela. Ainda assim, quando questionada se deixaria a Ponte Grande para escapar das enchentes, a resposta é imediata: “De jeito nenhum”. Para ela, sair significaria romper uma história: “Prefiro correr o risco da água entrar na minha casa do que ter que sair dela”.

Em Itaquaquecetuba, a relação encontrada pela reportagem é outra. Para Jéssica Oliveira de Brito, há 38 anos moradora da cidade, o Tietê está associado aos prejuízos das enchentes. Em uma das maiores, cerca de meio metro de água entrou em sua casa e destruiu móveis. “Entra ano, sai ano, entra prefeito, sai prefeito, e continua”, relata.

A lembrança mais extrema é de atravessar uma rua com água na altura do pescoço para tentar salvar objetos do antigo comércio da mãe. E, diante das cheias, deixar o local não é uma escolha simples. “Cada um mora onde pode morar. E onde eu posso morar é aqui”, finaliza.

 

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