sexta-feira, 02 out, 2026

Gestão Boigues ‘afrouxa’ cobrança e abre mão de R$ 450 milhões, aponta denúncia

Ministério Público e Tribunal de Contas do Estado de São Paulo investigam possível irregularidade na baixa de valores por parte da Prefeitura de Itaquaquecetuba
Da Redação

Receba as novidades direto no seu smartphone!

Entre no nosso grupo do Whatsapp e fique sempre atualizado.

O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) e o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) investigam a baixa, pela Prefeitura de Itaquaquecetuba, de valores que podem chegar a cerca de R$ 450 milhões relacionados a impostos e multas cobrados da SPMar pelas obras do Rodoanel Mário Covas no município. A apuração teve origem em duas representações apresentadas aos órgãos de controle, uma delas pela deputada estadual Mônica Seixas (PSOL), conhecida como Mônica das Pretas.

O Trecho Leste do Rodoanel Mário Covas foi inaugurado integralmente em 2015. Desde então, as gestões que passaram pelo Executivo de Itaquá tentaram receber os valores de ISS e multas penais relacionados às obras, além dos demais acréscimos de mora pelo não pagamento. O débito acabou sendo inscrito em dívida ativa e ajuizadas as devidas ações de cobranças.

Segundo a denúncia, até 2023 o caso vinha sendo tratado dentro dos parâmetros legais. A partir daquele ano, porém, já na gestão do prefeito Eduardo Boigues (PL), o crédito que já constava confirmado na esfera administrativa e igualmente mantido quando discutido judicialmente, portanto dependendo apenas do efetivo recebimento, teria sido solucionado administrativamente com aparente ausência de fato apto a embasar legalmente a baixa dos valores pela prefeitura, medida ocorrida no final de 2024.

O caso já avançou no Ministério Público, que instaurou um inquérito civil nº 0300.0000188/2026, para apurar as circunstâncias da baixa. As representações questionam justamente a legalidade do procedimento e apontam um possível impacto financeiro de aproximadamente R$ 450 milhões, considerando os valores relacionados às obras.

>> Entre no nosso grupo do WhatsApp – clique aqui

Dimensão dos valores

A magnitude do montante apontado nas representações pode ser observada quando comparada com as principais receitas do município. Dados do Portal da Transparência de Itaquaquecetuba e da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo indicam que, em 2025, a arrecadação própria formada por IPTU e ISSQN somou R$ 182,69 milhões. No mesmo ano, os repasses estaduais de ICMS e IPVA totalizaram R$ 248,65 milhões.

Juntos, os quatro tributos e repasses chegaram a R$ 431,34 milhões. Assim, os R$ 450 milhões apontados nas representações correspondem a aproximadamente 104,3% desse total anual.

Outro parâmetro é a situação da dívida líquida de Itaquá. Segundo dados divulgados pela própria prefeitura, a dívida fiscal líquida do município estava em R$ 376,03 milhões em 31 de dezembro de 2025.

Nesse cenário, o valor de R$ 450 milhões equivaleria a cerca de 119,7% da dívida fiscal líquida registrada no fim daquele ano. A comparação é apenas financeira e considera o valor apontado nas representações, não uma eventual destinação dos recursos ou a possibilidade jurídica de utilizá-los para quitar o passivo municipal.

Comparação com o orçamento

A Lei Orçamentária Anual de 2025, aprovada pela Lei Municipal nº 3.824, também permite dimensionar o montante.

Considerando as dotações informadas no levantamento para oito secretarias — Obras, Serviços Urbanos, Mobilidade Urbana, Habitação, Meio Ambiente, Esporte e Lazer, Planejamento e Cultura — o total chega a aproximadamente R$ 454,17 milhões.

O valor de R$ 450 milhões corresponde, portanto, a cerca de 99,1% da soma dessas dotações orçamentárias previstas para 2025.

As comparações ajudam a dimensionar a relevância financeira do valor investigado.

Investigação

O ponto central da apuração é entender por que valores que, segundo as representações, vinham sendo cobrados pela prefeitura acabaram baixados no final de 2024 e quais foram os fundamentos legais e administrativos utilizados para a decisão.

A baixa dos valores também chama atenção diante dos problemas enfrentados pelo município, especialmente com as enchentes que atingem diferentes regiões da cidade todos os anos. Enquanto moradores convivem com alagamentos e cobram investimentos em drenagem e infraestrutura, a prefeitura abriu mão, segundo as representações, de uma quantia que pode chegar a R$ 450 milhões.

O Ministério Público instaurou inquérito civil para analisar as circunstâncias do procedimento. O caso também foi levado ao Tribunal de Contas (TC-009544.989.26-2), que deverá avaliar os atos praticados pela administração municipal dentro de suas atribuições.

O que dizem os envolvidos?

Questionada pela GAZETA, a SPMar informou que reconhece a existência da dívida e, inclusive, já vem realizando os pagamentos após a formalização do acordo com o poder público.

“Esse acordo foi necessário porque havia um equívoco no cálculo inicialmente apresentado, que incluía serviços executados em outros municípios. Após a comprovação das inconsistências, a discussão foi encerrada, o novo valor foi homologado e o pagamento passou a ocorrer de forma efetiva”, afirmou a empresa.

Também questionada, a Prefeitura de Itaquaquecetuba optou pelo silêncio.

Total Views: 4
Compartilhar este artigo
Deixar uma avaliação

Deixar uma avaliação

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *