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‘Seremos os intermediadores para os excluídos’, diz secretário de Favelas

Conheça Carlos Alexandre, Secretario de Favelas de Ferraz de Vasconcelos, o primeiro do Brasil

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Na última semana, a Prefeitura de Ferraz de Vasconcelos apresentou a equipe da Secretaria de Desenvolvimento Habitacional, Relações Comunitárias e Favelas, pasta inédita no Brasil. O escolhido para comandar essa inovação foi o professor e psicopedagogo Carlos Alexandre Domingos, que acumula 20 anos de trabalho coordenando questões como zeladoria e manutenção urbana em favelas na capital paulista, na Cidade Tiradentes e em Sapopemba.

Confira a entrevista exclusiva realizada pela GAZETA com o primeiro Secretário de Favelas da História do Brasil:

GAZETA: Qual é a sua trajetória até chegar ao posto de primeiro Secretário de Favelas da história do Brasil?

CARLOS ALEXANDRE: Na verdade, eu iniciei na prefeitura de São Paulo como funcionário concursado há 20 anos, praticamente. Prestei serviço em Cidade Tiradentes por 18 anos e por um ano eu trabalhei em Sapopemba. Eu trabalhei em Cidade Tiradentes sempre na área de zeladoria urbana, manutenção, e em Sapopemba eu trabalhei como coordenador de Administração e Finanças.

Eu tenho formação, licenciatura, em geografia e pedagogia, sou pós-graduado em psicopedagogia institucional e também sou técnico em edificações. Lecionei por seis anos no Centro Paula Souza para o ensino médio e técnico.

Eu nasci na favela da Vila Prudente, fiquei lá até os três anos de idade, depois eu mudei para a favela da Vila Industrial e depois fui projeto Habitacional, na Cohab de Guaianases. Meu pai conseguiu um apartamento na Cohab para a gente sair da situação de favela que nos encontramos, não tinha nem banheiro na época, para você ter uma ideia. Depois meu pai, por falta de conhecimento, acabou comprando uma casa numa área de ocupação irregular também, então veja que está bastante relacionado com a nossa temática de favelas e de habitação.

Depois eu acabei me casando e tive três filhos, então acabei me mudando para Ferraz, em busca de uma casa maior. Isso foi há cinco anos, mas eu conheço a cidade, tenho muitos amigos na cidade, faz uns 15, 20 anos que eu frequento a cidade, então eu conheço um pouquinho, antes mesmo de morar aqui, da história da cidade.

 G: Antes de qualquer coisa, o que é uma favela?

CA: A favela é, infelizmente, fruto da falta de políticas habitacionais na história desse país. Muitas pessoas não têm acesso a moradia digna, que é um direito constitucional, mas elas precisam morar.

Há pessoas que não tem condições financeiras de alugar uma casa, de comprar, e ela precisa recorrer às favelas, então é um retrato da exclusão do nosso povo, um povo que não tem trabalho, não tem estudo, qualificação profissional – às vezes até tem, tem muitos talentos na favela –, mas a favela é isso, o resultado da exclusão social. Mais de 100 anos que começou a primeira favela no Brasil e a ideia é que a gente possa diminuir esses pontos de favelas e dar autonomia para essas pessoas, para que elas tenham uma vida melhor.

G: Estamos falando da criação da primeira Secretaria de Favelas da história Brasil, uma inovação institucional. Para que todos possam entender, como será a atuação da Secretaria?

CA: A Secretaria de Favelas foi criada a partir da Secretaria de Obras e Habitação, que são pastas muito pesadas em uma, e a prefeita [Priscila Gambale (PSDB)] teve a sapiência de separar para ter uma atenção diferente não só para as favelas, mas para as obras também poderem fluir melhor.

Essa é uma Secretaria para articular com as outras, antes o munícipe que precisava tratar de um assunto de saúde, por exemplo, relacionado à favela, tinha de procurar a Secretaria de Saúde, para falar de educação tinha que ir à de Educação.

Agora isso tudo vai ficar concentrado na Secretaria de Favelas e nós vamos ser os agentes intermediadores para os munícipes, essas pessoas que por muito tempo não foram vistas, foram excluídas. Ela veio para ser a Secretaria de articulação, não política, mas social para essas pessoas.

G: O senhor falou sobre questões como a saúde. A atuação da Secretaria, então, se dará além da habitação? Será uma atuação multifatorial com focos nesses territórios?

CA: Sem dúvidas. Nosso trabalho, em primeiro lugar, está sendo levantar uma rede de líderes, conhecer os líderes de cada favela, porque eles que conhecem as realidades de cada uma delas, não basta entrar lá, tem que conhecer. Foi assim que a Gerando Falcões teve sucesso na Favela dos Sonhos, antiga Boca do Sapo, eles construíram uma rede de líderes e nós estamos fazendo a mesma coisa.

Posteriormente, nós vamos mapear para entender os problemas, porque uma favela é muito diferente da outra. Às vezes uma precisa de uma creche, então precisamos articular com a Educação, na outra pode ser que isso não seja uma questão. Então, o nosso primeiro trabalho é mapear essa rede de líderes para depois tabelar esses dados e entender a realidade de cada favela.

G: Qualquer serviço público, independentemente das boas intenções ou da qualificação do gestor, depende de um orçamento para desenvolver o trabalho. Como está a questão orçamentária da Secretaria?

CA: O orçamento deste ano está bem curto, porque foi desmembrado da Secretaria de Obras, então atualmente estamos utilizando o orçamento para estruturar a própria Secretaria, comprando computadores, mesas, para dar uma condição de trabalho legal para os nossos colaboradores.

O orçamento do ano que vem está sendo montado, vamos entender quais são nossas prioridades, mas independente do orçamento, nós vamos trabalhar com parcerias, nós já estamos organizando a primeira Festa das Favelas, no próximo dia 5, e estamos indo atrás de parcerias para viabilizar o projeto.

É uma Secretaria que, claro, necessita do orçamento municipal, mas nós temos trabalhado com bastante articulação para fazer parcerias até com as outras Secretarias também, que estão bastante alinhadas conosco.

G: Pensando em planejamento, quais são os próximos passos da Secretaria?

CA: Nós temos um planejamento de curtíssimo prazo, que é até o fim do ano, como de estruturar a Pasta, organizar a Festa das Favelas e mapear de três a cinco favelas da cidade. Temos também metas de um ano, de curto prazo, dois anos e seis anos.

O trabalho da Gerando Falcões na Favela dos Sonhos tem sete anos de duração, então não é um trabalho que acontece da noite para o dia. Precisamos até desmistificar isso do serviço público, precisamos trabalhar com metas bem estabelecidas de curto, médio e longo prazo, e caso eu saia da Secretaria um dia, o projeto tem que continuar, o que acontece muito na gestão pública é isso, quando muda o prefeito ou o secretário tudo se perde, mas a gente quer deixar esse planejamento pronto para que o trabalho sempre tenha continuidade.

As informações sobre as favelas estão muito desatualizadas, então precisamos começar por aí, a meta é que até o fim do ano a gente tenha esse planejamento de um, dois e seis anos já montado.

G: Sabemos que o planejamento ainda está sendo traçado, mas perguntando até pessoalmente, como o senhor deseja que esteja a situação das favelas de Ferraz em seis anos?

CA: Olha, nós vamos continuar o trabalho que já está sendo realizado de regularização fundiária, então eu espero que tenhamos avançado nessa questão, espero também que nós possamos conseguir programas habitacionais para tirar as pessoas principalmente de áreas de risco, e possamos também dar essa emancipação para as favelas, ter um padrão, se não igual, parecido com a Favela dos Sonhos, com o trabalho da Gerando Falcões, de emancipação dessas pessoas.

Há muito talento na favela, eu sou um exemplo disso, eu sou filho de migrantes nordestinos, minha mãe é analfabeta, meu pai pouco estudou, eu fui o primeiro filho a entrar em uma faculdade, o primeiro a passar em um concurso público, e eu acho que tem muitos talentos como eu, e até melhores. O nosso trabalho é, além de questões como a regularização fundiária, é dar esse start para as pessoas, mostrar para as pessoas que elas podem sair das favelas e podem ser agentes multiplicadores. Eu me sinto um agente multiplicador, me sinto na obrigação de fazer o melhor trabalho possível, então se a gente conseguir fazer com que essas pessoas acreditem no potencial delas, a favela vai crescer.

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