O ano termina e, como manda a liturgia do jornalismo, surgem os prognósticos econômicos para o futuro. Cabe a mim, leitor, decidir como cumpri-los.
O Congresso funcionará em ritmo de reeleição, o que significa trabalhar olhando mais para as urnas — algo esperado, pois o parlamentar trabalha com a expectativa de reeleição. O governo, por sua vez, já organiza sua agenda positiva, buscando medidas que possam agradar eleitores e investidores, ainda que nem sempre simultaneamente.
No mercado, reina o consenso de que a Selic encerre o ciclo de alta em torno de 12,13% ao ano. O Bank of America projeta o Ibovespa em 180.000 pontos em 2026, podendo fazer máxima em 210.000 pontos. Já o mercado espera a taxa de câmbio em R$ 5,50 ao final de 2026. Imagino que o leitor espere, a esta altura, uma indicação segura de onde aportar seu capital.
Lamento desapontá-lo. Nenhuma projeção fará sentido se você ainda não fez o exercício mais banal e, ao mesmo tempo, mais negligenciado da vida financeira: saber quanto custa o seu próprio amanhã. Sem uma planilha de gastos para 2026, qualquer rentabilidade é apenas um consolo elegante para a desordem doméstica.
E não falo apenas para pessoas físicas. Empresários, gestores e líderes de negócios também precisam dessa disciplina. Planejar custos, investimentos e fluxo de caixa não é apenas prudência: é sobrevivência em um cenário econômico incerto. A taxa de juros, o câmbio ou o Ibovespa podem até chamar a atenção, mas não substituem a clareza sobre quanto a sua empresa pode gastar, investir ou reinvestir com segurança.
É preciso sentar e organizar 2026, avaliando receitas, despesas, contratos e dívidas. Pois de nada adianta nos iludirmos com o mercado financeiro se não conseguimos o básico: gerir a própria vida e os próprios negócios. Só depois desse exercício é que se pode olhar para o futuro com algum grau de previsibilidade, mesmo que o Congresso e o Governo cumpram suas próprias agendas.
Investir no mercado financeiro é maravilhoso, mas chegar a ele com a vida financeira organizada é quase uma dádiva do Nilo.






