Ter mulheres, homens, negros, indígenas e a população LGBT em postos de protagonismos e poder político não é garantia de representatividade. É por isso que a nossa democracia vem sendo tão atacada e ameaçada como nos últimos anos. É preciso discutir alternativas para a construção de um poder empático e criar um novo ciclo que modifique as relações entre trabalho, política e convívio social para que nossa democracia seja não apenas representada, mas de fato representativa.
Essa perspectiva de exercício de um poder mais humanizado para garantir a vida democrática está, ao mesmo tempo, imersa a contradições. Primeiro, porque não se constrói um Estado Democrático de Direito sem a participação das mulheres e do jornalismo livre e independente. Como então é possível estender essa garantia num cenário de manipulação algorítmicas, de retórica do ódio e escala 6X1 num momento em que o Brasil soma mais de 50% das mulheres na condição de chefes de família, a maioria sem rede de apoio?
Experiências afora mostram que os países que figuram no topo da equidade de gênero são aqueles com as democracias mais avançadas do mundo justamente por serem os que mais contam com mulheres em postos de protagonismo e poder político e sistemas robustos de combate à desinformação e fake news. Essa realidade não reflete investimentos em alta tecnologia, inteligência artificial ou sistemas avançados de otimização de tarefas, mas num elemento simples e essencial para que possamos avançar enquanto civilização.
Refiro-me à cultura, mas não apenas enquanto produto, ou como valorização do fazer artístico e da formação de artistas, mas da cultura enquanto processo, vetor de transformação social, mola de desenvolvimento econômico e social muito mais potente que qualquer bomba atômica. Diante de uma pluralidade de definições, a cultura é um dos mais valiosos instrumentos para democratizar o modo de vida.
É por ela também que acessamos traumas e feridas e conseguimos nos posicionar diante da dor do outro, um comportamento fundamental para estimular a empatia e construir um poder mais humano. A cultura enquanto perspectiva do desenvolvimento humano pode influenciar padrões de comportamentos para quebrar o ambiente de pós-verdade que hoje estrutura muitas instâncias sociais e descontruir crenças limitantes que muitas vezes impedem interpretar a realidade e, consequentemente, identificar a desinformação.
A proteção as nossas crianças hoje expostas nas plataformas de comunicação digital, como bem retratou a série “Adolescência”, passa pela necessidade de se pensar numa cultura do cuidado. Muito mais do que a questão tecnológica, os dilemas que envolvem uma geração marcada pela hegemonia das redes sociais expõem a vulnerabilidade das famílias perante uma sociedade que ainda não pautou a função social da maternidade e reconheceu a invisibilidade do trabalho do cuidado.
Tratar a cultura enquanto raiz é colher mais do que fruto. É fermento. É adubo para despertar consciência e estimular as potencialidades da natureza humana, em especial, do aspecto feminino que existe em cada um de nós (homens e mulheres) e se manifesta principalmente no afeto, zelo, respeito, cuidado, na proteção, intuição e sensibilidade, características fundamentais para a construção de uma sociedade mais empática e um exercício de poder humanizado, fundamentais para o equilíbrio dos papeis de gênero e a garantia de uma existência democrática.





