Em cada passo dado pelo movimento abolicionista no decorrer de todo o século XVIII, as elites dominantes brasileiras insurgiam – em seus jantares privativos e nas páginas de jornais – com as mais variadas argumentações, desde as mais tecnocratas às mais emocionais e religiosas, para defender a manutenção da escravidão. Tudo para tentar impedir qualquer avanço civilizatório.
O reacionarismo muda sua roupagem, troca de pauta a depender do momento, mas segue tendo horror ao progresso e à ideia de liberdade.
Foi desta forma, no contexto da criação dos direitos trabalhistas, o sufrágio universal, que incluía mulheres e analfabetos, casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, reconhecimento do nome social de pessoas transexuais, direitos trabalhistas a empregadas domésticas. São inúmeros os exemplos em que os reacionários pregavam o apocalipse, que nunca ocorreu.
Em partes tinham razão. Essa é a beleza da evolução, todos esses momentos “acabaram” com o mundo como era.
O Brasil muda pouco. Na mesma semana que ficamos estarrecidos com as imagens de um pai abusando sexualmente de sua filha numa cama de UTI, a Câmara dos Deputados pauta, em regime de urgência, uma lei que criminaliza o aborto, mesmo nas condições hoje previstas em lei.
Na prática, se essa garota, estuprada enquanto traqueostomizada, engravidasse de seu pai e decidisse que não quer parir o fruto desse abuso, poderia ser presa por mais tempo que seu próprio estuprador.
Independentemente do tema ou momento histórico, a locomotiva do atraso segue a todo vapor, mas, mais cedo ou mais tarde, o novo sempre vem.



