A ideia de uma semana de trabalho mais curta não é nova. Paul Lafargue, em seu ensaio O Direito à Preguiça (1880), criticava o culto ao trabalho exacerbado na sociedade capitalista, argumentando que a obsessão pelo trabalho contínuo era prejudicial à criatividade e ao bem-estar humano.
Hoje, países como Islândia, Portugal e Espanha já experimentam essa realidade, com jornadas reduzidas em busca de maior qualidade de vida. Na Bélgica, foi adotado um modelo de quatro dias de trabalho com jornadas de 10 horas diárias, proporcionando mais tempo livre aos trabalhadores sem reduzir a carga horária total.
No entanto, se o objetivo é melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, é necessário ponderar os contras. Uma das desvantagens dessa nova jornada é o aumento da pressão sobre os trabalhadores durante os quatro dias. Além disso, a redução da carga semanal para 36 horas, mantendo os salários, acarretaria um aumento significativo dos custos de mão de obra.
Dificilmente o empresário assumiria essa elevação de custos sozinho. A tendência seria repassar esse aumento ao consumidor final, gerando pressões inflacionárias. Nesse ponto, a “mão invisível” de Adam Smith poderia atuar, levando a uma onda inicial de demissões, seguida por novas contratações com salários ajustados à nova realidade de mercado.
Outro caminho que já começa a se concretizar é a substituição de parte da mão de obra por tecnologias como a inteligência artificial (IA), o que reduziria custos e manteria a produtividade, mas geraria novos desafios sociais e econômicos, como o desemprego estrutural.
É possível que defensores desse modelo argumentem que os trabalhadores não ficariam desempregados, mas seriam absorvidos por outros setores ou realocados em funções gerenciais. No entanto, a realidade educacional do Brasil conta outra história. Nosso sistema de ensino, deficiente e desigual, não prepara grande parte dos trabalhadores para exercer funções mais complexas, como cargos gerenciais ou funções técnicas avançadas.
Uma possível solução seria reformar o mercado de trabalho, adotando um modelo de pagamento por hora. Dessa forma, quem optar pelas 36 horas semanais arcaria com os custos dessa escolha, permitindo que cada trabalhador decida sua própria jornada dentro dos limites de suas necessidades e aspirações, sem onerar excessivamente o empregador ou o consumidor.



