Em entrevista exclusiva à GAZETA, a prefeita Mara Bertaiolli (PL) faz um balanço dos primeiros seis meses de gestão à frente de Mogi das Cruzes. Com tom firme, ela fala sobre o desafio de administrar uma cidade com quase meio milhão de habitantes, revela as medidas para equilibrar as contas públicas, destaca ações nas áreas de saúde, educação e mobilidade, e projeta os próximos passos — como a inauguração da Maternidade Municipal ainda este ano. Confira:
GAZETA: Prefeita, como a senhora define, em poucas palavras, este início de mandato à frente de Mogi das Cruzes?
Mara Bertaiolli: Administrar uma cidade com quase 500 mil pessoas e com a série de problemas é certamente um grande desafio. Sabíamos que não seria fácil, mas assumimos o compromisso de cuidar novamente da nossa Mogi, das pessoas e colocar a casa em ordem, e é isso que estamos fazendo, todos os dias. Montamos uma equipe forte e fomos em frente.
GAZETA: A senhora herdou um déficit de mais de R$ 200 milhões. O que foi possível fazer para ajustar as contas públicas e qual o saldo atual?
Mara Bertaiolli: Quando nos propusemos a administrar a cidade, sabíamos que encontraríamos inúmeros problemas, inclusive de ordem financeira, mas não era possível saber, mesmo com o período de transição, a real situação. Quando assumimos, vimos que era muito maior do que imaginávamos. Mas estamos aqui para trabalhar e não para lamentar.
E é assim que estamos fazendo desde o dia 1º de janeiro. Começamos a colocar a casa em ordem: criamos o Comitê Gestor de Crise Financeira, cortamos e priorizamos gastos, revisamos mais de cem contratos vigentes. Negociamos valores com fornecedores, sem mexer no escopo do contrato executado e sem perder a qualidade dos serviços. Ao contrário, exigimos sempre o melhor e é assim que será por toda a nossa administração. Depois de seis meses, já vemos um cenário financeiro e administrativo mais viável. A criação deste Comitê foi tão importante para a gestão que se tornou permanente e norteará a avaliação e execução de todos os contratos públicos da nossa gestão.
Renegociamos a dívida de R$ 64,4 milhões com o Iprem, garantindo que o servidor público aposentado e pensionista mantivesse o seu pagamento em dia e mais do que isso: asseguramos que o servidor municipal ativo tenha garantido o seu direito de se apontar ao final da jornada de prestação de serviços à cidade.
E é assim que se faz gestão: com diálogo, transparência, responsabilidade e ética.
GAZETA: Um dos marcos foi a revisão de contratos. Houve resistência ou cortes mais polêmicos? A senhora acredita que essa medida será suficiente para manter o equilíbrio até o fim do mandato?
Mara Bertaiolli: Negociar contratos, limitar gastos e promover cortes nunca é uma ação fácil, mas tivemos êxito porque fomos transparentes. Mostramos para a população, vereadores e fornecedores a nossa real situação e a seriedade da nossa gestão. Aqui não tem segredo, não tem dois pesos e duas medidas: trabalhamos com absoluta transparência e igualdade de conduta para todos. Todos os contratos foram revisados e renegociados e dentro das possibilidades de cada um, reduzimos custos. O mais importante: o serviço foi mantido e na maioria das vezes, melhorado.
GAZETA: Na saúde, a realização de mutirões tem sido destacada. Quais foram os impactos mais visíveis para a população? E como garantir que não sejam apenas medidas pontuais?
Mara Bertaiolli: A redução nas filas de espera, com certeza, foi o primeiro impacto que a população sentiu. Mas não foi só isso: garantimos serviços de qualidade, com hora marcada, bons profissionais e respeito pela mogiana, pelo mogiano.
Iniciamos nesta semana mais uma etapa do Programa Pró-Visão [matéria completa na página 10], uma ação que visa garantir atendimento e tratamento oftalmológico para adultos e crianças. Quando assumimos a gestão, mais de 14 mil pessoas aguardavam por uma simples consulta médica com oftalmo. Nos primeiros meses do ano, reduzimos a fila para 11 mil pessoas e agora, em parceria com o Lions Clube, mais 1,5 mil pacientes já estão sendo atendidos na van da saúde – um reforço aos atendimentos já realizados nas unidades físicas.
E é assim que conseguimos avançar: com bons parceiros. No início do ano, fizemos um excelente trabalho em conjunto com a Clínica Boucault, resultando em 750 atendimentos oftalmológicos. Em junho, teve início o Mutirão de Catarata e a ampliação das cirurgias, em parceria com a Santa Casa de Mogi, que deve realizar 908 procedimentos ao longo de seis meses.
Cito outro exemplo: no primeiro semestre deste ano, 7.532 mulheres realizaram exames de mamografia. Desse total, 537 contaram com apoio da Carreta de Mamografia, que contribuiu significativamente para agilizar o atendimento à demanda reprimida. Hoje, os agendamentos são feitos com prazo médio de até um mês.
Outra ação importante: criamos a Carreta de Ultrassonografia, que realizou 5.305 exames desde o início, em 12 de março deste ano. Já atendemos as regiões de Brás Cubas, Sabaúna, Oropó, Jardim Aeroporto 2 e 3, Jardim Planalto, Conjunto Santo Ângelo, Biritiba Ussú, Taiaçupeba, Jardim Margarida, Jardim Piatã, Taboão, Novo Horizonte, Jundiapeba, César de Souza, Botujuru, Taiaçupeba e Quatinga.
O Mutirão de Psicologia, no Centro de Atenção Psicossocial (Caps AD), é mais uma ação com resultados positivos e já atendeu toda a demanda reprimida dos últimos anos. Em janeiro, havia 5.380 pacientes na fila de espera. Também estamos fazendo o Mutirão de Especialidades, no CIAS (Complexo Integrado de Atendimento à Saúde), com consultas de endocrinologia, dermatologia e urologia. Isso tudo em apenas seis meses. Vamos avançar ainda mais.
GAZETA: A prefeitura renovou o plano de saúde dos servidores sem reajuste. Como foi viabilizada essa negociação? E qual o peso disso no orçamento anual?
Mara Bertaiolli: Este é mais um exemplo de que com transparência, diálogo e seriedade, conseguimos bons resultados. Conversamos com a Notredame, responsável pelo contrato de convênio médico ofertado aos servidores públicos municipais ativos e inativos, mostramos nosso interesse em renovar o contrato, mas também a exigência de que o funcionário não fosse onerado com os reajustes anuais. Ao final, nossa solicitação foi acatada, o escopo da prestação de serviço mantida, sem reajuste para os quase 15 mil usuários e para a prefeitura.
GAZETA: Sobre mobilidade urbana: os novos ônibus foram bem recebidos, mas qual é o plano para melhorar continuamente a qualidade do transporte sem repassar custos à população?
Mara Bertaiolli: O plano é seguir fiscalizando, cobrando a capacitação dos motoristas e cobradores das linhas municipais, cumprimento do horário, com atendimento digno para os usuários. Hoje as linhas de ônibus são aferidas pelo Inmetro, garantindo mais segurança para o passageiro. Estamos modernizando a fiscalização, tornando o processo mais rápido e ágil também.
E vamos revitalizar os terminais rodoviários, pontos de ônibus e garantir acessibilidade para crianças, idosos e pessoas com deficiência.
GAZETA: Do ponto de vista político, como tem sido sua relação com a Câmara Municipal e quais projetos prioritários a senhora pretende apresentar no segundo semestre?
Mara Bertaiolli: O nosso relacionamento tem sido muito bom, respeitoso e colaborativo com a nossa cidade. Eu sempre digo que as divergências são naturais e previstas, mas o diálogo e o debate saudável devem permanecer sempre.
Como resultado, já aprovamos bons projetos nos primeiros seis meses deste ano, a exemplo do autorizo para a formalização de convênio com o Governo do Estado, que garante o investimento em R$ 260 milhões em saneamento público; o parcelamento e renegociação das dívidas apuradas junto ao Iprem; a reestruturação administrativa, que garantiu a criação das Secretarias da Mulher e Longevidade e extinção de outras pastas, sem onerar o município; e mais recentemente a criação do Plano Municipal da Integridade, que reforçará o compromisso desta gestão com a transparência, ética e lisura nos atos públicos.
GAZETA: A criação das secretarias da Mulher e da Longevidade são marcos dessa gestão. Quais ações concretas essas Pastas já entregaram e o que vem pela frente?
Mara Bertaiolli: A Secretaria da Mulher é um grande avanço para nós, porque não representa os direitos só das mulheres, mas da diversidade, da pluralidade e da família em todas as suas necessidades. Tivemos o Mês da Mulher, em março, com uma série de eventos, ações e capacitações que marcaram o início do diálogo com as mogianas.
Realizamos, de forma inédita na região, a adesão ao Pacto Ninguém se Cala, em parceria com o Ministério Público Estadual. Criamos o Monitor da Desigualdade, garantindo que cada vez mais tenhamos dados e cenários mais claros da situação da mulher mogiana, tornando os projetos e ações para este público mais assertivos.
A Secretaria da Longevidade vem para garantir não só o cumprimento do Estatuto do Idoso, mas o acesso ao esporte, lazer, educação, cultura, saúde e mobilidade para todos os mogianos e mogianas com mais de 60 anos. Teremos boas notícias em breve.
GAZETA: A senhora anunciou que a Maternidade Municipal será inaugurada em 2025. Essa meta está mantida?
Mara Bertaiolli: A Saúde é e sempre será uma prioridade dentro da nossa gestão. Abrir a primeira Maternidade Municipal, bem em frente ao Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, é oferecer à população mogiana a estrutura, a qualidade e a excelência no atendimento que todos merecem e precisam ter. É inaceitável a cidade contar com um prédio pronto para atender a mulher, desde a gestação até o nascimento, e que está com as portas fechadas há quase 4 anos. Vamos dar vida para à primeira Maternidade Municipal e para isso teremos o apoio governador Tarcísio de Freitas, que já se colocou à disposição da cidade e de todos os mogianos e mogianas. É o que sempre falamos e tenho repetido aonde eu: ninguém faz nada sozinho. A saúde é investimento todos os dias. E para fazer a cidade andar, temos grandes parcerias, como a retomada do diálogo com o Governo do Estado, e muita disposição para o trabalho.
GAZETA: Mogi deve receber R$ 260 milhões em investimentos para universalizar o saneamento básico. Isso só foi possível graças à reaproximação da gestão com o Governo do Estado?
Mara Bertaiolli: Sim. Ainda durante o Governo de Transição, eu e o Téo (vice-prefeito) fizemos uma lista das principais necessidades que Mogi enfrentava, colocamos os pedidos embaixo do braço e fomos procurar o governador Tarcísio de Freitas. Resgatamos o diálogo da cidade com o governo estadual. E o mesmo trabalho foi feito em Brasília.
Tivemos sucesso: em 11 de fevereiro a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, esteve aqui na prefeitura, acompanhada do secretário estadual de Parcerias e Investimentos, Rafael Benini, e da presidente da SP Águas, Camila Viana. Avançamos na modernização da linha 11 da CPTM, reforma de todas as estações de trem e construção da estação em César de Souza; tivemos o autorizo de R$ 260 milhões em investimentos para o saneamento básico da cidade e teremos sucesso em outros projetos que também estamos apresentando para o Estado.
Recebemos a visita do superintendente do DER, Sergio Codelo, que autorizou as obras para a construção da ponte na Estrada da Volta Fria. Já o secretário estadual de Saúde, em sua visita a Mogi, anunciou a parceria para reabrir a maternidade, além da construção de um Pronto Socorro estadual na cidade. Estamos avançando.
GAZETA: Na área da educação, a entrega dos kits escolares e a economia na merenda são frequentemente citadas. Há planos de novos investimentos, como escolas ou creches?
Mara Bertaiolli: Assim como a Saúde, a Educação é e sempre será uma prioridade na nossa gestão. Sou professora, educadora e mãe, então, eu sei bem o que significa uma educação de qualidade para os nossos filhos. Vamos voltar a ter a Melhor Merenda do Estado de São Paulo, título que recebemos, com muito orgulho e trabalho, em 2010. Já reformulamos o cardápio, reestruturamos o Departamento de Alimentação, reforçamos a gestão e cobramos muito qualidade e regularidade no fornecimento.
Encontramos uma série de problemas estruturais nas escolas, obras paradas, documentação pendente em processos…. Estamos resolvendo pendência por pendência e colocando a educação para funcionar novamente.
Já começamos a construção de um Cempre (Centro Municipal de Programas Educacionais) em tempo integral, no Distrito de Taiaçupeba. Será uma escola com o que há de mais moderno, incluindo os acessos às novas tecnologias e informática. Uma outra unidade, neste mesmo padrão, será construída em Biritiba Ussu.
GAZETA: Por fim, quais são as principais metas da senhora para os próximos seis meses de governo? Há alguma nova prioridade que deve ganhar mais atenção?
Mara Bertaiolli: A nossa meta não é para os próximos seis meses. O nosso planejamento é para 4 anos de gestão. Na prefeitura, é preciso fazer todos os dias, trabalhar sempre e não deixar nada para depois, porque as urgências são inúmeras e diárias. Mogi das Cruzes é uma cidade de 464 anos e uma população que chega perto a 500 mil pessoas.
Neste ano assistiremos a abertura do nosso Hospital da Mulher e da Maternidade Municipal, o que será um marco para Mogi das Cruzes. Teremos avanços no projeto Integra Mogi, já em execução, e garanto para vocês: daremos um salto em mobilidade. Mogi voltará a andar. E todos nós teremos muito orgulho de dizer que somos mogianos.


