Por décadas, o verde e rosa da Acadêmicos do São João pintou a avenida e marcou gerações em Mogi das Cruzes. Fundada em 24 de dezembro de 1972, a escola nasceu de uma roda de conversa em um campo de futebol, mas rapidamente se transformou em um dos maiores símbolos culturais da cidade. Hoje, com 54 anos de trajetória e 24 títulos conquistados, a São João mantém vivo o legado do carnaval mogiano, mesmo sem desfiles oficiais há seis anos.
A origem vem de ainda antes. Alexandre da Silva, o Negão, relembra que seu pai foi responsável por trazer a primeira fanfarra para Mogi, ainda na década de 1970. Pouco depois surgiu a Catumbi e, em seguida, a São João.
“Foi o pontapé inicial para todas as escolas que vieram depois. Brás Cubas, Vila Industrial, Guararema, Ferraz… todas passaram primeiro pela São João. A gente pode dizer que ela é o carro-chefe do samba em Mogi”, afirma.
Em seu auge, a agremiação chegou a colocar cerca de 1.200 componentes na avenida, com mais de 100 ritmistas na bateria. Foram anos de hegemonia, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, quando a escola acumulou sequências de títulos e ganhou o apelido de Majestosa do Samba.
O diretor de comunicação, Rodrigo Souza, reforça que essa história foi construída pela comunidade.
“Ninguém nos deu nada. Esses títulos são fruto de trabalho, de envolvimento, de pessoas que colocaram tempo, dinheiro e amor aqui dentro. A São João é comunidade. É causa social, é ajuda ao próximo, é identidade.”
As cores também carregam poesia. Inicialmente preta e branca, herdadas do time de futebol do bairro, a escola adotou o verde e rosa após um episódio simples e simbólico: a grama do campo contrastando com as flores de uma cerejeira. Mais tarde, veio o apadrinhamento da Mangueira, do Rio de Janeiro, fortalecendo ainda mais a ligação com o samba tradicional.
A paixão atravessa gerações. Wendel Hipólito, filho do Negão, cresceu dentro da quadra. Começou na bateria mirim, passou por alas, foi mestre-sala e chegou a desfilar ao lado da própria avó.
“Minha vida é a São João. Eu nasci no mesmo dia da fundação da escola. Literalmente, eu nasci aqui. Fiz amigos, aprendi valores e construí minha história dentro da São João.”
Essa herança também vive na Velha Guarda. Maria Aparecida Mendes, escritora do livro Crenças e lendas da Acadêmicos do São João, participou do primeiro desfile, em 1973.
“Era tudo mais espontâneo, mais alegre. Cada bairro tinha sua escola. Hoje ficou mais técnico, mais engessado, mas a essência ainda mora aqui.” Aos 10 anos, ela abriu desfile como comissão de frente improvisada. Hoje, registra memórias em verde e rosa para que a história não se perca.
Na linha de frente da emoção está Isabela Mendes, porta-bandeira oficial da escola há quase duas décadas. Ela conheceu a São João ainda na barriga da mãe. “Carregar esse pavilhão é uma honra. Ele representa pessoas que já se foram, lutas, sonhos. A gente dança por todos eles.”
O coração da escola segue pulsando na bateria Cadência Invocada. Segundo Henrique Resende, diretor da agremiação, o nome traduz a identidade sonora do São João. “É uma bateria cadenciada, mas que se impõe. Quando o São João entra na avenida, todo mundo sente. É tradição.”
Henrique também lembra do último desfile, em 2020, marcado por superação.
“A escola vinha desacreditada. Mas envolvemos a comunidade, fomos para a avenida confiantes e saímos com orgulho. Não veio o título, mas saímos com sentimento de campeão.”
Para Negão, a ausência do carnaval em Mogi é uma ferida aberta. “Não dá pra colocar a culpa só no poder público. A comunidade precisa puxar isso de volta. Meu pai fazia carnaval chamando o povo. Hoje dependemos demais de políticos e não precisa ser assim. A São João está pronta. Só falta a cidade querer.”
Rodrigo concorda.
“Se tivesse desfile amanhã, a São João desceria a avenida. Faltariam ajustes de alegoria, mas gente nós temos. Paixão nós temos. O sonho é ver o carnaval mogiano voltar.”
Enquanto isso não acontece, a escola se mantém viva com eventos, ações comunitárias e planos de revitalização da quadra. Cobrir o espaço, retomar encontros mensais e fortalecer a base do bairro fazem parte dos projetos.
Quando perguntados a definir a São João em uma palavra, a resposta se repete entre diretores, ritmistas e porta-bandeiras: amor.
Mais do que uma escola de samba, a Acadêmicos do São João é memória, resistência e identidade cultural. Uma nação verde e rosa que segue esperando o dia em que Mogi das Cruzes voltará a ouvir, na avenida, o som da Cadência Invocada anunciando que o carnaval e a Majestosa do Samba continuam vivos.



