A coluna de Fernanda começou a entortar aos 11 anos. Ninguém percebeu. Nem ela, nem a mãe, nem os professores da escola municipal onde estudava em Suzano, na região do Alto Tietê. O desvio foi identificado por acaso, três anos depois, quando a adolescente fez uma radiografia de tórax por conta de uma pneumonia. O diagnóstico veio tarde: escoliose idiopática com curvatura acima de 40 graus.
- A janela de tratamento que se fecha com o tempo
- Triagem nas escolas: uma prática simples que o Brasil ainda não adota
- Por que a escoliose passa despercebida em casa
- Quando o colete resolve e quando a cirurgia entra em questão
- A escoliose que persiste na vida adulta
- O que a região do Alto Tietê pode aprender com outros estados
O caso, embora fictício em seus detalhes, reflete uma realidade comum nos consultórios ortopédicos brasileiros. A demora para identificar a escoliose empurra pacientes para tratamentos mais longos, mais caros e, em muitos casos, para filas cirúrgicas que podem se estender por anos no sistema público.
Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a escoliose afeta cerca de 2% da população global. No Brasil, estimativas apontam para mais de 6 milhões de pessoas com o diagnóstico.
Entre adolescentes de 10 a 16 anos, a prevalência varia de 2% a 4%, conforme levantamentos publicados em periódicos como a Acta Ortopédica Brasileira e a Revista Brasileira de Ortopedia. A maioria dos casos é de escoliose idiopática, cuja causa permanece desconhecida pela medicina, e que responde por mais de 80% dos diagnósticos.
O problema não é a condição em si. Curvas leves, quando identificadas cedo, costumam ser manejadas com acompanhamento clínico e fisioterapia. A complicação aparece quando o diagnóstico demora.
>> Entre no nosso grupo do WhatsApp – clique aqui
A janela de tratamento que se fecha com o tempo
A escoliose idiopática se desenvolve durante os estirões de crescimento da adolescência, geralmente entre os 10 e os 15 anos. Esse é o período em que a curvatura progride com mais velocidade e, por consequência, o momento em que a intervenção precoce tem maior chance de funcionar.
Dois fatores determinam a evolução do quadro: o ângulo de Cobb, que mede o grau da curvatura, e o estágio de maturidade óssea do paciente. Quanto maior a curva e mais distante o fim do crescimento, maior o risco de progressão.
Curvas abaixo de 25 graus podem ser monitoradas. Entre 25 e 45 graus, o uso de coletes ortopédicos entra como opção para frear o avanço. Acima de 45 a 50 graus, a cirurgia passa a ser considerada. O ponto é que, sem detecção precoce, curvas que poderiam ser tratadas com colete chegam ao consultório já no limite cirúrgico.
Um estudo conduzido em centro de referência brasileiro e publicado pela revista Spine, do Grupo de Estudos de Escoliose Pediátrica da Sociedade Brasileira de Coluna, acompanhou 704 crianças e adolescentes na fila de espera do SUS entre 2020 e 2022. O tempo médio de espera por cirurgia encontrado foi superior a 25 meses. Em casos extremos, a espera chegou a 15 anos.
“A consequência é previsível: enquanto o paciente espera, a curvatura avança, a cirurgia se torna mais complexa, o risco de complicações cresce e o custo ao sistema de saúde sobe”, acrescenta Dr. Aurélio Arantes, ortopedista especialista em escoliose Goiânia.
No Rio Grande do Sul, o governo estadual precisou criar um programa específico para reduzir a fila de cirurgias pediátricas de escoliose, com investimento de R$ 6 milhões e valor unitário de R$ 56 mil por procedimento. Na rede particular, o custo pode ultrapassar R$ 200 mil.
Triagem nas escolas: uma prática simples que o Brasil ainda não adota
Nos Estados Unidos, o rastreamento de escoliose em escolas é obrigatório por lei em 26 estados. A recomendação parte da Sociedade de Pesquisa em Escoliose e da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos.
O exame é rápido, leva cerca de 30 segundos por aluno, e se baseia no teste de Adams, uma manobra clínica que identifica assimetrias no tronco quando o estudante se inclina para frente.
No Brasil, esse tipo de programa não é obrigatório e permanece pouco disseminado. Iniciativas isoladas existem, como o projeto de extensão da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, que treina acadêmicos de medicina e professores de educação física para realizar o teste de Adams em escolas públicas.
Estudos brasileiros conduzidos em cidades como Goiânia, Belo Horizonte e no interior do Rio Grande do Sul já demonstraram que o rastreamento escolar identifica curvas que não haviam sido diagnosticadas e que estavam em risco de progressão.
Uma pesquisa realizada em Belo Horizonte pelo ambulatório de coluna do Hospital das Clínicas da UFMG encontrou prevalência de escoliose de 4,8% entre os estudantes avaliados. Em Goiânia, estudo publicado na Acta Ortopédica Brasileira registrou prevalência de 4,3% entre alunos de 10 a 14 anos da rede pública.
Em ambos os casos, a maioria das curvas identificadas era leve e poderia ser tratada de forma conservadora, sem cirurgia, se acompanhada desde o momento da detecção.
O custo da triagem é baixo. O custo da ausência dela, não. Pesquisa realizada em centro de referência brasileiro mostrou que o tratamento conservador da escoliose custa, em média, R$ 3.245 por paciente, enquanto o tratamento cirúrgico chega a R$ 36.590 pelo SUS, valor que sobe consideravelmente quando a complexidade do caso exige materiais e equipes mais especializados.
Por que a escoliose passa despercebida em casa
Um dos motivos para o diagnóstico tardio é que a escoliose, nos estágios iniciais, raramente causa dor. A progressão da curvatura acontece de forma silenciosa. Quando o adolescente ou a família percebem algo diferente, seja uma assimetria nos ombros, um lado do quadril mais alto que o outro ou uma roupa que não cai bem, a curva já pode ter avançado.
Conforme especialistas do COE, centro de ortopedia em Goiânia, a condição também é mais prevalente em meninas, que têm até oito vezes mais chance de desenvolver curvas progressivas em comparação aos meninos, segundo a literatura médica internacional.
A genética exerce papel relevante: filhos de pais com escoliose têm risco aumentado de desenvolver o mesmo quadro. Ainda assim, não existe hoje um exame de sangue ou teste genético aplicável na rotina clínica para prever quem terá a condição.
Para famílias que residem na região do Alto Tietê, onde a rede pública de saúde atende uma população superior a 2,7 milhões de pessoas, a orientação de especialistas é que pais e professores de educação física observem sinais como desnivelamento dos ombros, proeminência de uma das escápulas, desalinhamento do tronco ao se curvar para frente e diferença na altura dos quadris. Qualquer um desses sinais justifica encaminhamento para avaliação com um ortopedista especialista em escoliose.
Quando o colete resolve e quando a cirurgia entra em questão
O tratamento conservador é a primeira opção para a maioria dos casos. Coletes ortopédicos do tipo TLSO, que cobrem a região torácica e lombar, podem estabilizar a curva durante a fase de crescimento e, em casos favoráveis, até reduzir a angulação.
A eficácia depende de dois fatores: o grau da curvatura no momento do início do uso e a adesão do paciente, que precisa usar o colete por muitas horas ao dia.
Exercícios específicos para escoliose, como os baseados no método Schroth, complementam o tratamento. O objetivo é fortalecer a musculatura estabilizadora da coluna, melhorar o alinhamento do tronco e ensinar o paciente a adotar posturas que não alimentem a progressão da curva. Esses exercícios não substituem o colete quando indicado, mas ampliam os resultados quando usados em conjunto.
A cirurgia é reservada para curvas acima de 45 a 50 graus ou em situações onde a progressão é rápida e o tratamento conservador já se mostrou insuficiente.
O procedimento mais comum é a artrodese, que consiste na fixação de um trecho da coluna com hastes e parafusos metálicos, corrigindo a curvatura e impedindo que ela volte a avançar. A cirurgia dura entre quatro e seis horas, exige internação de três a cinco dias e demanda reabilitação de meses.
Nem todo caso de escoliose caminha para a sala de operação. A maioria das curvas pequenas permanece estável ao longo da vida. O problema é que, sem diagnóstico, não é possível distinguir as curvas que vão progredir das que vão permanecer leves. Por isso, o acompanhamento periódico com especialista é o único caminho seguro.
A escoliose que persiste na vida adulta
Para quem passou pela adolescência sem diagnóstico, a escoliose pode se manifestar com mais clareza depois dos 30 ou 40 anos. A curvatura que existia desde a juventude começa a gerar dor, rigidez e limitação funcional à medida que o corpo perde massa muscular e os discos intervertebrais se desgastam.
Existe ainda a escoliose degenerativa, que surge a partir dos 40 ou 50 anos em pessoas que não tinham deformidade prévia, resultado do desgaste assimétrico das estruturas da coluna lombar.
Em adultos, o foco do tratamento muda. A correção estética da curvatura deixa de ser prioridade. O que importa é aliviar a dor, descomprimir nervos que possam estar sendo afetados pela deformidade e restaurar o equilíbrio sagital do corpo, ou seja, a forma como o peso se distribui ao longo da coluna.
Para adultos que convivem com dor associada ao desvio ou que percebem piora nos sintomas ao longo dos anos, buscar uma avaliação com profissional qualificado pode fazer a diferença entre o controle conservador e uma cirurgia de alta complexidade.
Informações sobre as opções de tratamento para escoliose disponíveis ajudam o paciente a entender melhor seu quadro e a tomar decisões com mais segurança.
O que a região do Alto Tietê pode aprender com outros estados
A região do Alto Tietê, que reúne municípios como Mogi das Cruzes, Suzano, Itaquaquecetuba, Arujá, Poá e Ferraz de Vasconcelos, tem na Santa Casa de Mogi das Cruzes uma referência em ortopedia e alta complexidade pelo SUS.
O hospital realiza mais de 6.500 cirurgias por ano e atende uma demanda que abrange os mais de 2,7 milhões de habitantes da região. Ainda assim, a triagem precoce de deformidades da coluna em escolas da região não faz parte da rotina da rede pública de ensino.
No Rio Grande do Sul, a experiência do Programa Escoliose, lançado em 2023, demonstrou que é possível reduzir filas e custos com uma política pública organizada.
Em 18 meses de funcionamento, o programa realizou 95 cirurgias pediátricas e economizou R$ 3,9 milhões em judicializações, já que muitas famílias recorriam à Justiça para conseguir o procedimento pela rede privada.
Especialistas ouvidos para esta reportagem reforçam que o caminho mais eficiente não é operar mais, mas diagnosticar antes. O teste de Adams, quando aplicado por profissionais treinados em escolas, identifica casos suspeitos que podem ser encaminhados para radiografia confirmatória.
A medida não exige investimento pesado em infraestrutura, apenas formação de professores de educação física e parceria entre secretarias de saúde e educação.
Enquanto o país não avança nessa direção, cabe às famílias e aos pediatras manter a atenção. A escoliose não avisa antes de progredir. Ela simplesmente avança, em silêncio, aproveitando cada centímetro de crescimento para tornar mais difícil o que, meses antes, poderia ter sido simples.
*Por Kátia Alves


