Sob a administração de Eduardo Boigues (PL) desde 2021, Itaquaquecetuba se tornou um dos maiores polos de arrecadação de multas de trânsito da região do Alto Tietê. A reportagem da GAZETA analisou dados oficiais do Portal da Transparência da própria Prefeitura sobre a arrecadação e os investimentos provenientes dessas multas. O resultado preocupa em dobro: ao mesmo tempo em que a cidade arrecada muito com infrações, muito pouco do montante é destinado à educação no trânsito.
Desde o início do primeiro mandato, a gestão Boigues adotou uma postura intensa de fiscalização, com alto investimento na estrutura de controle viário, que se retroalimenta desse mesmo recurso ano a ano. Em cinco anos, de 2021 a 2025, o município somou R$ 206 milhões em multas — um patamar muito superior ao registrado anteriormente.
A evolução anual também é reveladora. Se, no último ano da gestão Mamoru Nakashima, em 2020, a cidade arrecadou R$ 8,8 milhões, no primeiro ano de Boigues o valor mais que dobrou, chegando a R$ 18,5 milhões, e disparou para R$ 70,3 milhões em 2022. Sobre esse pico, a Prefeitura atribui o aumento à retomada dos prazos de cobrança após a suspensão nacional durante a pandemia. O comportamento dos anos seguintes, porém, indica que não se tratou de uma distorção pontual: em 2023, a arrecadação foi de R$ 45,4 milhões; caiu em 2024 (R$ 27,6 milhões); e voltou a subir em 2025, que já registra R$ 42,8 milhões até outubro.
Comparação
A comparação com municípios vizinhos reforça o peso das multas em Itaquá. Nos primeiros seis meses deste ano, Mogi das Cruzes arrecadou R$ 11,8 milhões em autuações. No mesmo período, Itaquaquecetuba registrou R$ 19,8 milhões — 67% a mais, embora tenha população menor.
Pelos dados do Censo 2022, Mogi tem 450 mil habitantes, o que equivale a R$ 26,22 por morador em multas emitidas no semestre. Já em Itaquá, com 370 mil moradores, o valor per capita chega a R$ 53,68 — mais que o dobro da média mogiana.
Educação
Na análise das planilhas, a GAZETA identificou um segundo ponto crítico: embora a legislação federal determine que o dinheiro das multas seja obrigatoriamente investido em segurança no trânsito — incluindo educação, sinalização, engenharia e fiscalização — a quase totalidade dos recursos aplicados pela Prefeitura se concentra na própria estrutura de fiscalização.
Entre 2021 e 2025, a maior parte dos recursos foi direcionada à manutenção de radares, operação de sistemas de autuação, serviços de tecnologia, pátio de veículos e suporte a equipamentos. Nesse período, mais de 90% dos gastos vinculados às multas foram destinados a esse eixo.
No mesmo intervalo, não há registros de despesas classificadas como educação de trânsito. Questionada, a Prefeitura afirmou que campanhas, ações escolares e atividades educativas estariam distribuídas em outras rubricas, como fiscalização ou sinalização. Segundo a administração, isso justificaria a ausência de uma linha específica, e parte dessas ações ocorreria no âmbito de outras secretarias, como a Educação.
A Prefeitura afirma que esse modelo não fere a legislação, embora não reflita o propósito central da norma, que prioriza a educação no trânsito.
Sobras
Outro dado relevante aparece na comparação entre o total arrecadado e os valores efetivamente pagos. Entre janeiro de 2021 e outubro de 2025, a cidade recebeu R$ 206 milhões, mas apenas R$ 129 milhões foram pagos em despesas vinculadas ao trânsito — uma diferença de aproximadamente R$ 77 milhões.
A administração afirma que os recursos não utilizados permanecem no Fundo Municipal de Trânsito e que parte está empenhada à espera de execução. Nos extratos e relatórios públicos, porém, não é possível identificar com clareza esses saldos, seu valor atualizado ou a destinação futura de cada parte do montante.



