sábado, 21 fev, 2026

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Amor, solidão e o combate à violência doméstica

Giss Zarbietti

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Desconstruir o mito do amor romântico, em que o cônjuge se vê na obrigação de fazer o outro feliz, talvez seja o caminho mais desafiador e autêntico de se construir relacionamentos saudáveis e combater a violência doméstica, intrafamiliar e os crimes de feminicídio. Reconhecer o próprio valor numa sociedade que valoriza o consumismo e a superficialidade das relações humanas, tão evidentes nesses tempos de hiperconectividade e hegemonia das redes sociais é um passo fundamental para se recusar a viver relações tóxicas.

Essa experimentação exige coragem para se entregar à solitude e desenvolver a própria identidade. Relacionamentos construídos como válvula de escape apenas para sair da casa dos pais, para preencher o vazio interior que não para de crescer nos ambientes de interação virtual ou procurar no outro o que não resolvemos dentro de nós podem gerar submissão, infelicidade e até ciclos de violência.

A solitude voluntária não está ligada ao sofrimento. Ao atravessar a própria escuridão aprendemos que podemos ser uma grande companheira para nós mesmas e, a partir daí, se doar inteira para um relacionamento. Friedrich Nietzsche, renomado filósofo alemão, diz que sem a solidão o amor se torna uma fuga, uma dependência emocional porque não pode ser encontrado fora de nós. Em outras palavras, ele diz que não se pode buscar no outro a solução para os próprios vazios.

Para Nietzsche, é na solidão que está a capacidade de amar. Ele a via como uma força poderosa, capaz de impulsionar o indivíduo a transcender a si mesmo e a buscar valores mais elevados até encontrar sua própria essência. No entanto, alertava para os perigos do amor, que pode levar à dependência e à perda da individualidade. Para ele, se o amor for experimentado sem solidão, torna-se forma de conformismo e obsessão.

Tema recorrente na obra de Clarice Lispector, a solidão não é retratada pela autora apenas pela ausência de outras pessoas, mas um estado de espírito ideal para o desenvolvimento de uma individualidade forte. É através da solidão que os personagens de Clarice buscam por identidade e são confrontados com seus medos, angústias e desejos mais profundos. A solidão, como mostrada em suas obras, é uma ferramenta para crescimento emocional e construção de relações saudáveis.

Ao mergulhar em seu interior, enfrentar suas sombras e suportar a própria companhia e presença é possível se libertar da ilusão de que o outro pode preencher o vazio. E assim, se conhecendo, se aceitando e se amando não há necessidade de projetar as dificuldades na relação a dois, o que é fundamental para a construção do amor autêntico defendido pela filósofa existencialista Simone de Beauvoir.

Sem a solidez de uma vida interior o amor pode se transformar em uma obsessão destrutiva que resulta na violência doméstica, intrafamiliar e nos crimes de feminicídio. O amor verdadeiro não nasce da carência, mas da completude. Somente um indivíduo que aprendeu a amar a si mesmo na solidão é capaz de amar verdadeiramente o outro. Quando esse amor transcende o ego e a individualidade expandindo-se para algo maior, pode até mesmo impactar outras vidas e o mundo ao seu redor.

 

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