Qualquer um que adentrar a Igreja Nossa Senhora d’Ajuda, a Matriz de Itaquaquecetuba, verá o trabalho de Leandro Ribeiro. Este, porém, não é o nome de nenhum membro do clero itaquaquecetubense, nem de um fiel fervoroso, e sim do artista que devolveu a vida ao painel principal, logo na entrada do templo, que havia sido danificado por fortes chuvas no início do ano.
Leandro recebeu a GAZETA em sua casa, na Vila Augusta, em Itaquá, e, com o brilho nos olhos de uma criança que descobriu uma nova paixão, contou sua história, seus sonhos e a satisfação de ver seu trabalho exposto não só na cidade, mas em diversos locais do país.
Se classificando como “artesão”, ele contou que sua trajetória teve início por conta de seu antigo trabalho, de vendedor de ladrilhos hidráulicos. Assim começou a se interessar pelas pinturas das peças e, de forma autodidata, se aprofundar nas técnicas para executá-las.
Como qualquer artista, ele começou pelo mais básico, o que, para a arte em cerâmica, significa as pinturas em peças de porcelana, e assim foi sofisticando seu trabalho até então amador. Quando se sentiu confiante o suficiente, abriu sua própria fábrica, a Monte Azul Cerâmica.
Ele reconhece a importância dos estudos formais e as limitações que a falta de uma faculdade traz, mas ressalta que o mais crucial é o interesse em aprender e, acima de tudo, a coragem de pôr a mão na massa. Coragem, inclusive, para aceitar o desafio de restaurar o painel da principal igreja de Itaquá, que, com 399 anos, é a segunda mais antiga do estado.
Para completa-lo, conta, recebeu uma caixa com os cacos dos azulejos originais para, como num quebra-cabeças, montar um por um, reproduzir os desenhos e replicar.
“Eu fico muito orgulhoso do trabalho, porque, de verdade, nem parece que foi mexido. Tem alguns cantinhos que eu olho e consigo notar a diferença, mas é quase imperceptível”, completa.
Ao seu lado trabalha sua esposa, Priscila Alves, que, mesmo ainda aprendendo as técnicas, compartilha com ele o talento para as artes plásticas, mesmo sem ter tido essa consciência sobre si própria, já que o marido notou sua vocação vendo os desenhos que ela fazia nas unhas de suas clientes. “Essa mulherada que faz unha não sabe o dom que tem”, ressaltou.
Pensando em histórias iguais às deles, Leandro nutriu em si o desejo de abrir uma escola para repartir com os jovens, adultos e idosos do bairro seus conhecimentos e, quem sabe, “garimpar” talentos como o dele e de Priscila, além de oferecer uma opção interessante de hobby.
“Tem muito jovem que se perde porque, em bairros como esse, mais afastados do centro, não tem acesso a muita coisa, e até idosos que estão vivendo de ansiedade porque não fazem nada; então vem cá, vamos pintar um azulejinho. Dá para fazer muita coisa boa”, conclui.

Essa reportagem faz parte da série da homenagem da GAZETA aos 463 anos de Itaquaquecetuba. Confira todas as reportagem da série ‘Faces de Itaquá’:
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