sexta-feira, 10 abr, 2026
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Lesão no ombro afasta mais de 35 mil trabalhadores por ano e diagnóstico tardio agrava quadro

Doenças do manguito rotador figuram entre as dez principais causas de benefício por incapacidade do INSS, mas a maioria dos pacientes demora meses para procurar um especialista
Da Redação

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A dor começa discreta. Um incômodo ao levantar o braço para pegar algo na prateleira, uma fisgada ao vestir a camisa pela manhã, uma pontada que aparece de madrugada e atrapalha o sono.

Na rotina corrida do trabalhador, o ombro que dói costuma ser ignorado por semanas, às vezes por meses. Quando o paciente finalmente procura atendimento, o quadro que poderia ter sido resolvido com fisioterapia e repouso já evoluiu para uma ruptura que só tem correção cirúrgica.

Esse cenário se repete em consultórios ortopédicos por todo o país. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que as doenças do manguito rotador ocuparam a sexta posição entre os problemas de saúde que mais geraram concessão de benefícios por incapacidade temporária em 2023, com 35.267 afastamentos.

Lesões não especificadas no ombro apareceram novamente no ranking, na décima posição, com outros 28.320 registros. Somados, os dois grupos ultrapassam 63 mil trabalhadores impedidos de exercer suas funções por causa de um problema em uma única articulação.

O ombro é a articulação com o maior arco de movimento do corpo humano. Essa amplitude, que permite desde o gesto de pentear o cabelo até carregar peso acima da cabeça, também o torna vulnerável.

O manguito rotador, conjunto de quatro tendões responsáveis por estabilizar e movimentar a articulação, sofre desgaste progressivo com a idade, com esforços repetitivos e com sobrecarga mecânica.

A literatura médica brasileira aponta que a prevalência dessas lesões varia entre 7% e 40% na população geral e pode atingir metade dos indivíduos acima de 80 anos, segundo dados publicados pela Revista Brasileira de Ortopedia.

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Um problema que cresce com o envelhecimento da força de trabalho

O Brasil vive uma transição demográfica que já se reflete nos números da Previdência. Mais de 4,12 milhões de trabalhadores se afastaram temporariamente por motivos de saúde em 2025, o maior número desde 2021, conforme levantamento da Agência Brasil com base nos dados do Ministério da Previdência Social.

As doenças ortopédicas lideram a lista de causas: dor nas costas, hérnia de disco, fraturas e lesões articulares respondem por cerca de 70% dos auxílios concedidos pelo INSS.

O ombro ocupa lugar de destaque nessa estatística. Entre os afastamentos classificados como acidentários, ou seja, relacionados ao trabalho, as lesões no ombro apareceram como a segunda causa mais frequente em 2024, com 7.494 registros, atrás apenas das dores na coluna.

Trabalhadores do setor metalúrgico, da construção civil, do comércio varejista e da agroindústria estão entre os mais atingidos. Profissões que exigem movimentos repetitivos acima da linha do ombro, como pintura, montagem industrial e carga e descarga, concentram os casos mais graves.

Mas o problema não atinge só quem faz trabalho braçal. A postura prolongada diante do computador, a falta de fortalecimento muscular e o sedentarismo contribuem para o enfraquecimento dos tendões e o surgimento de quadros inflamatórios.

Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, com 142 trabalhadores atendidos no ambulatório de Medicina do Trabalho da Unicamp, revelou que 84% dos casos de dor no ombro tiveram diagnóstico confirmado de síndrome do manguito rotador. Desses, 88% receberam indicação inicial de tratamento conservador, mas 58% evoluíram para cirurgia.

O preço do diagnóstico tardio

O intervalo entre o início dos sintomas e a busca por atendimento especializado é um dos fatores que mais comprometem o resultado do tratamento. A Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC) alerta que a demora na avaliação permite a progressão da lesão, dificulta o reparo cirúrgico e aumenta o risco de complicações.

Dr. Thiago Caixeta, ortopedista de ombro em Goiânia, explica que, lesões parciais do manguito rotador, quando identificadas no estágio inicial, respondem bem a tratamento conservador com medicação, repouso e reabilitação. O problema é que boa parte dos pacientes só procura um ortopedista quando a dor se torna incapacitante.

Nesse ponto, a lesão parcial pode já ter se convertido em ruptura completa, o tecido muscular pode apresentar infiltração gordurosa irreversível e a função do ombro fica seriamente comprometida.

O reparo cirúrgico do manguito rotador apresenta resultados satisfatórios em mais de 85% dos pacientes operados em tempo adequado. Quando a cirurgia é feita tardiamente, porém, a taxa de sucesso cai e o risco de rerruptura aumenta.

Um estudo com 604 procedimentos cirúrgicos em hospitais de referência, publicado pela Revista Brasileira de Ortopedia, registrou taxa de reoperação de aproximadamente 3%, sendo a causa não traumática responsável por dois terços dos casos.

O papel da artroscopia na recuperação mais rápida

A artroscopia se consolidou como a principal via de cirurgia para o ombro nos últimos anos. O procedimento utiliza pequenas incisões e uma câmera de vídeo para acessar a articulação sem necessidade de corte extenso.

Segundo a equipe de ortopedistas do COE, centro ortopédico localizado em Goiânia, o cirurgião visualiza a lesão em um monitor e faz o reparo com instrumentos específicos, incluindo âncoras, pequenos parafusos que fixam os tendões ao osso.

As vantagens da técnica são evidentes: menor agressão aos tecidos, menos dor no pós-operatório, cicatrizes reduzidas e menor risco de infecção. As duas lesões mais frequentes do ombro, a ruptura do manguito rotador e a instabilidade articular, são tratadas por artroscopia com taxas elevadas de sucesso.

Para pacientes que dependem do ombro para trabalhar, a recuperação mais rápida representa também o retorno antecipado à atividade profissional.

Nem todos os casos são cirúrgicos. A decisão depende do tipo e da extensão da lesão, da idade do paciente, do nível de atividade e da resposta ao tratamento conservador. O que não muda é a necessidade de avaliação precoce por um profissional com formação específica em ombro.

Como a escolha do especialista interfere no resultado

A ortopedia é uma área ampla. Dentro dela, a cirurgia do ombro e cotovelo é uma subespecialidade com formação própria, que exige residência complementar e domínio de técnicas específicas.

A diferença entre um ortopedista generalista e um cirurgião com foco em ombro se reflete tanto no diagnóstico, que exige testes clínicos direcionados e interpretação precisa de exames de imagem, quanto no tratamento, que pode variar da indicação de fisioterapia ao tipo de técnica cirúrgica empregada.

Pesquisar especialistas em cirurgia no ombro no Brasil é o primeiro passo para quem sente dor persistente, perda de força ou limitação de movimento. A formação do médico, o volume de cirurgias realizadas e a vinculação a sociedades como a SBCOC e a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) são critérios objetivos que ajudam na escolha.

Dados do DataSUS mostram que o número de reparos do manguito rotador pelo SUS cresceu 238% entre 2003 e 2015, passando de 0,83 para 2,81 cirurgias por 100 mil habitantes.

A tendência de crescimento se manteve nos anos seguintes, impulsionada pelo envelhecimento da população e pela maior conscientização sobre a necessidade de tratamento. A Região Sudeste, onde está o Alto Tietê, concentra parcela significativa desses procedimentos.

O cenário no Alto Tietê e na Grande São Paulo

Moradores da região do Alto Tietê, que abrange cidades como Mogi das Cruzes, Suzano, Itaquaquecetuba, Arujá, Poá, Ferraz de Vasconcelos e Guararema, convivem com uma realidade comum às áreas metropolitanas: a combinação de atividade industrial intensa, longas jornadas de trabalho e acesso nem sempre ágil a consultas com especialistas pelo sistema público.

A demanda por cirurgias ortopédicas na região é alta. Hospitais municipais da Grande São Paulo registraram aumento expressivo nos procedimentos ortopédicos entre 2023 e 2025.

Para trabalhadores dessas cidades, a dor no ombro que começa como um incômodo e se agrava ao longo dos meses pode significar semanas ou meses na fila do INSS, perda de renda e comprometimento da qualidade de vida.

A busca ativa por clínicas especialistas em cirurgia de ombro antes que o quadro se agrave é uma decisão que reduz tempo de recuperação, custos com tratamento e chances de complicações.

O que observar antes de procurar atendimento

A SBCOC lista sinais que indicam a necessidade de avaliação com especialista em ombro: dor que piora à noite ou ao deitar sobre o lado afetado, dificuldade para levantar o braço acima da cabeça, perda progressiva de força, estalidos durante o movimento e dor que persiste por mais de duas semanas mesmo com uso de analgésicos.

Trabalhadores que exercem atividades de risco, como movimentação de carga, esforço repetitivo com os braços elevados ou exposição a vibração, devem tratar qualquer dor no ombro com atenção redobrada.

A legislação trabalhista prevê que doenças relacionadas ao trabalho geram estabilidade de 12 meses após a alta médica, mas o benefício legal não compensa o tempo perdido nem a limitação funcional que uma lesão avançada pode causar.

O reparo cirúrgico do manguito rotador no SUS registrou mais de 50 mil procedimentos acumulados entre 2003 e 2015. Nos anos seguintes, o número continuou em alta.

O Brasil realizou 13,6 milhões de cirurgias eletivas pelo SUS em 2024, um recorde histórico, com crescimento de 10,8% em relação ao ano anterior. Boa parte desse volume corresponde a procedimentos ortopédicos represados pela pandemia de Covid-19, que interrompeu cirurgias eletivas em todo o país entre 2020 e 2022.

O ombro que dói não é frescura. É um sinal de que algo precisa de atenção antes que o problema menor se converta em incapacidade. Para quem trabalha com o corpo, e no fim das contas, todos trabalhamos, essa atenção pode definir a diferença entre uma recuperação rápida e um afastamento longo com resultado incerto.

*Por Kátia Alves

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