Em 2025, as lesões por esforços repetitivos e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho responderam por 42% dos afastamentos ocupacionais no país, segundo dados da Previdência Social. Foram mais de 623 mil trabalhadores impedidos de exercer suas funções por conta de problemas musculoesqueléticos.
- O que acontece dentro da mão quando o dedo trava
- Quem corre mais risco e por quê
- Diagnóstico tardio é o erro mais comum
- Quando o tratamento conservador não resolve
- A reabilitação define o resultado a longo prazo
- Prevenção começa no ambiente de trabalho
- O papel do especialista na decisão sobre o tratamento
- O que observar antes de procurar ajuda
Entre as condições que compõem esse número, uma das menos conhecidas pela população geral é o dedo em gatilho, nome popular da tenossinovite estenosante dos flexores. A doença provoca dor, estalos e travamento dos dedos da mão, comprometendo atividades simples como segurar uma caneta, abrir uma garrafa ou digitar no celular.
Na região do Alto Tietê, onde a indústria de transformação responde por cerca de 25% dos empregos formais e emprega aproximadamente 70 mil pessoas distribuídas em duas mil fábricas, o risco de lesões por movimentos repetitivos merece atenção.
Municípios como Mogi das Cruzes, Suzano e Itaquaquecetuba concentram trabalhadores de linhas de produção, construção civil e comércio, atividades que exigem uso intenso das mãos ao longo de toda a jornada. Apesar disso, o dedo em gatilho continua sendo confundido com “dor muscular passageira” por grande parte dos pacientes, o que atrasa o diagnóstico e complica o tratamento.
O problema não se restringe ao chão de fábrica. Costureiras, cabeleireiros, músicos, dentistas e profissionais que passam horas ao computador também integram o grupo de risco. O ponto em comum é a repetição prolongada dos mesmos movimentos de flexão dos dedos, sem intervalos adequados de descanso.
O que acontece dentro da mão quando o dedo trava
Os tendões flexores dos dedos passam por pequenos túneis chamados polias, que os mantêm próximos aos ossos durante o movimento. A principal delas, conhecida como polia A1, fica na base do dedo, na região da palma.
Quando há inflamação crônica, a bainha que envolve o tendão engrossa e o espaço dentro da polia diminui. O tendão, então, não desliza com liberdade. O resultado é a sensação de ressalto ao dobrar ou esticar o dedo, acompanhada de dor localizada. Em casos avançados, o dedo fica travado na posição dobrada e o paciente precisa usar a outra mão para destravá-lo.
A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) classifica a doença em quatro graus. No primeiro, há apenas dor e inchaço sobre a polia, sem bloqueio. No segundo, o dedo apresenta o estalo característico.
No terceiro, o travamento já é constante. No quarto, o dedo perde a capacidade de extensão completa. A progressão entre esses estágios pode levar meses ou anos, mas a tendência é de piora quando não há intervenção.
“Os dedos mais atingidos são o anelar, o polegar e o médio. Em muitos casos, mais de um dedo é afetado ao mesmo tempo, e ambas as mãos podem estar envolvidas”, afirma Dr. Henrique Bufaiçal, médico ortopedista especialista em mão em Goiânia.
Quem corre mais risco e por quê
Estimativas presentes na literatura médica internacional indicam que o dedo em gatilho atinge até 2% da população na faixa entre 40 e 60 anos. A prevalência entre mulheres é quase o dobro da observada entre homens, especialmente durante a menopausa, o puerpério e a gravidez, períodos marcados por alterações hormonais que favorecem a inflamação dos tecidos.
Pacientes com diabetes tipo 2 têm risco até cinco vezes maior de desenvolver a condição. Um estudo conduzido no Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo encontrou prevalência de 28% de diabetes entre os pacientes atendidos com dedo em gatilho, número compatível com o que a literatura aponta.
A associação entre as duas doenças é relevante porque o Brasil tem mais de 16 milhões de adultos diagnosticados com diabetes, conforme estimativas da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Artrite reumatoide, hipotireoidismo, gota e insuficiência renal crônica também figuram como fatores predisponentes. Mas existe um elemento que atravessa todas essas condições clínicas: o uso repetitivo das mãos.
Profissões que exigem preensão forçada, como o manuseio de ferramentas, a operação de máquinas industriais e o trabalho em linhas de montagem, aumentam consideravelmente a probabilidade de a doença aparecer.
No Alto Tietê, a combinação de polo industrial expressivo com uma população que envelhece gradualmente cria um cenário propício. Trabalhadores que passaram décadas em funções manuais começam a apresentar sintomas por volta dos 50 anos, justamente quando a capacidade de regeneração dos tecidos diminui.
Diagnóstico tardio é o erro mais comum
A pesquisa publicada na Revista Brasileira de Ortopedia, realizada com 243 ortopedistas durante o Congresso Brasileiro de Ortopedia e Traumatologia de 2018, revelou que 73,3% dos especialistas fazem o diagnóstico do dedo em gatilho apenas com exame físico, sem necessidade de exames de imagem. O dado mostra que a doença é, tecnicamente, simples de identificar. O problema está no caminho até o consultório.
Muitos pacientes passam meses ou anos convivendo com a dor, atribuindo o sintoma ao cansaço do trabalho ou à “idade”. Procuram farmácias em busca de anti-inflamatórios e analgésicos, fazem compressas caseiras e evitam usar o dedo afetado.
O alívio temporário dá a falsa impressão de que o problema se resolveu, quando na verdade o espessamento da bainha continua progredindo. Quando finalmente buscam atendimento médico, parte desses pacientes já está no grau III ou IV, com travamento constante e perda funcional significativa.
O atraso no diagnóstico tem consequências diretas. Casos identificados nos estágios iniciais podem ser tratados com imobilização, uso de anti-inflamatórios e infiltração de corticoide, métodos que dispensam cirurgia.
A mesma pesquisa mostrou que 91,4% dos ortopedistas optam por tratamento não cirúrgico como primeira conduta. O problema é que, quanto mais avançada a doença, menor a chance de resposta ao tratamento conservador.
Quando o tratamento conservador não resolve
O protocolo mais utilizado no Brasil combina repouso relativo da mão, uso de tala noturna e infiltração com corticoide associado a anestésico local. Segundo os dados da pesquisa da Revista Brasileira de Ortopedia, 61,7% dos ortopedistas adotam essa combinação. O tempo habitual de tentativa não cirúrgica varia de um a três meses, conforme apontaram 52,3% dos entrevistados.
Quando a infiltração não produz resultado duradouro, ou quando o dedo já chega travado ao consultório, a cirurgia se torna necessária. O procedimento mais comum é a liberação da polia A1 por via aberta, indicada por 84,4% dos especialistas consultados.
A incisão é feita na base do dedo, na palma da mão, e o cirurgião secciona a polia que está comprimindo o tendão. O tempo de cirurgia é curto e o procedimento costuma ser feito com anestesia local, em regime ambulatorial.
Existe também a técnica percutânea, em que a liberação é feita com agulha, sem incisão convencional. Um estudo prospectivo conduzido na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) avaliou 76 dedos tratados por essa via e obteve 100% de correção do travamento, com recidiva em apenas 4% dos casos. Nenhuma complicação grave, como lesão de nervo ou disfunção do tendão, foi registrada.
Pacientes que precisam de tratamento do dedo em gatilho devem procurar um cirurgião de mão com experiência no procedimento, já que a escolha da técnica depende do grau da doença, da presença de comorbidades e das características anatômicas de cada paciente.
A reabilitação define o resultado a longo prazo
A cirurgia resolve o travamento, mas a recuperação funcional depende do que vem depois. Nos primeiros dias, é esperado dor leve no local da incisão, inchaço e alguma limitação de movimento. A maior parte dos pacientes relata desconforto por até quatro semanas, que diminui progressivamente.
A fisioterapia especializada em mão começa logo após a liberação do cirurgião, em geral entre uma e duas semanas depois do procedimento. O objetivo inicial é controlar o edema e preservar a mobilidade dos dedos adjacentes.
Em seguida, exercícios de deslizamento do tendão e fortalecimento gradual são introduzidos. Cirurgias mais simples permitem retorno às atividades leves em poucas semanas. Casos complexos, especialmente quando há comprometimento de mais de um dedo ou associação com outras doenças da mão, podem exigir meses de reabilitação.
Pesquisa publicada no Archives of Health Investigation, conduzida no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, avaliou 24 pacientes submetidos a cirurgia de dedo em gatilho com retinaculótomo.
A dor medida pela escala visual analógica caiu de 6,64 para 1,32 após o procedimento. O escore funcional QuickDash, que mede a capacidade de usar as mãos no dia a dia, foi de 42,3 para 6,9. Os números indicam melhora expressiva tanto na dor quanto na função.
Uma orientação frequente entre especialistas é não negligenciar a fase de reabilitação. Pacientes que abandonam a fisioterapia antes do tempo ou forçam a mão nos primeiros dias correm risco de rigidez articular e aderências cicatriciais, complicações que podem exigir nova intervenção.
Prevenção começa no ambiente de trabalho
A relação entre dedo em gatilho e atividades ocupacionais está bem documentada na literatura. A SBOT lista como fatores de risco as atividades manuais que exigem preensão forçada, movimentos repetitivos e exposição a vibração intensa. São características comuns em diversas funções industriais, agrícolas e de serviços.
Conforme a equipe médica do COE, clínica especializada em cuidado ortopédico de Goiânia, a prevenção passa por medidas ergonômicas: pausas regulares durante a jornada, alternância de tarefas que exijam uso intenso das mãos, uso de ferramentas adequadas ao tamanho da mão do trabalhador e redução da vibração transmitida por máquinas.
Empresas que investem em programas de ginástica laboral e avaliação ergonômica periódica tendem a registrar menos afastamentos por doenças musculoesqueléticas.
No Alto Tietê, o Ciesp regional e o Senai já desenvolvem programas voltados à qualificação e à saúde do trabalhador industrial. Mas o reconhecimento precoce dos sintomas ainda depende, em grande parte, da informação.
Quando o trabalhador sabe que dor na base do dedo acompanhada de estalo não é “frescura” nem consequência natural do envelhecimento, a busca por atendimento acontece mais cedo.
O papel do especialista na decisão sobre o tratamento
Nem todo ortopedista é cirurgião de mão. A mão é uma estrutura complexa, com 27 ossos, dezenas de tendões, nervos e ligamentos comprimidos em um espaço pequeno.
A subespecialidade em cirurgia da mão exige residência específica após a formação em ortopedia, com treinamento em técnicas de microcirurgia e conhecimento aprofundado da anatomia funcional dos dedos e do punho.
Quando o dedo em gatilho não responde ao tratamento conservador ou quando o paciente já apresenta travamento constante, a avaliação por um cirurgião de mão faz diferença na escolha do procedimento.
Existem variações anatômicas, associações com síndrome do túnel do carpo e casos em que mais de uma polia precisa ser abordada. Tudo isso exige experiência específica.
Para quem busca clínicas especialistas em cirurgia de mão, o caminho mais seguro é verificar se o profissional tem registro de qualificação em cirurgia da mão (RQE) e se é membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCMAO). Essas credenciais indicam formação reconhecida e compromisso com atualização na área.
O que observar antes de procurar ajuda
O primeiro sinal costuma ser dor na palma da mão, na base de um dos dedos, especialmente pela manhã. A rigidez matinal é mais intensa porque o edema piora durante a noite, quando as mãos ficam inativas. Se a dor vem acompanhada de estalo ao dobrar o dedo, é provável que a polia A1 já esteja comprometida.
Outros sinais que merecem atenção: um nódulo palpável na base do dedo, dificuldade para abrir a mão completamente após fechar o punho e necessidade de usar a outra mão para esticar o dedo travado. Qualquer um desses sintomas justifica uma consulta com especialista, mesmo que a dor pareça leve.
A demora em buscar ajuda não é apenas desconfortável. É cara. Trabalhadores afastados por doenças musculoesqueléticas respondem por parcela significativa dos benefícios por incapacidade temporária concedidos pelo INSS.
Em 2025, as dores nas costas lideraram esse ranking, com mais de 237 mil concessões, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. As doenças da mão e do punho, embora menos visíveis nas estatísticas gerais, seguem o mesmo padrão de subnotificação e atraso no diagnóstico.
Reconhecer os sinais cedo, procurar avaliação especializada e seguir o tratamento indicado continuam sendo as medidas mais eficientes para evitar que um problema tratável se transforme em incapacidade prolongada.
*Por Kátia Alves


