O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos tem crescido de forma significativa nos últimos anos. Especialistas apontam que esse aumento está diretamente ligado à ampliação do acesso à informação, à evolução dos critérios diagnósticos e à redução do estigma em torno do tema. Um levantamento realizado nos Estados Unidos, por exemplo, mostrou que, entre 2011 e 2022, o número de diagnósticos em pessoas de 26 a 34 anos aumentou 450%.
Esse movimento tem dado visibilidade a histórias que, por muito tempo, ficaram sem respostas. É o caso da mogiana Graziele Eroles, de 49 anos, que recebeu o diagnóstico de autismo aos 48, após uma trajetória marcada por dúvidas, dores e diagnósticos equivocados.
“Quando a gente recebe o diagnóstico na fase adulta, começa a revisitar toda a vida. Eu percebi que desde a infância já existiam sinais, mas naquela época não se falava sobre autismo como hoje”, relata.
Antes de descobrir o TEA, Graziele enfrentou uma série de dificuldades de saúde. Após sofrer um abuso emocional, passou a sentir dores intensas no corpo e chegou a ser diagnosticada com fibromialgia. Mesmo em tratamento, os sintomas não melhoravam, o que levou a uma investigação mais aprofundada. Após 12 sessões de avaliação neuropsicológica, veio o diagnóstico de autismo nível 1 de suporte.
O impacto foi imediato. “No começo foi assustador, um misto de sentimentos. Mas depois muitas coisas começaram a fazer sentido. Eu parei de me cobrar tanto e passei a entender melhor os meus limites”, afirma.
Mãe solo, Graziele conta que o diagnóstico também impactou a dinâmica familiar.
“Para os meus filhos foi mais difícil do que para mim. Eles precisaram entender essa nova realidade, enquanto eu também estava aprendendo sobre mim mesma”, explica.
Segundo ela, um dos maiores desafios para adultos autistas é a necessidade constante de adaptação social. “A criança pode expressar o que sente, chorar, gritar. O adulto não. A sociedade não permite. Então a gente aprende a se controlar o tempo todo”, diz.
A falta de informação ainda é um obstáculo significativo. Muitos adultos passam anos sem diagnóstico ou recebem diagnósticos incorretos. “Antes, não existia esse conhecimento. Muitos médicos não sabiam identificar. Isso fez com que muita gente crescesse sem entender o que estava acontecendo consigo”, completa.
Apesar dos desafios, Graziele transformou a própria experiência em uma rede de apoio para outras mulheres. Ela criou a exposição M.A.E — Mães Mulheres Atípicas Empreendedoras, um projeto que reúne mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente mães atípicas, para geração de renda e fortalecimento coletivo.
“A ideia surgiu da necessidade de me ajudar e ajudar outras mulheres. Muitas têm talento, mas não têm espaço. Hoje já somos 27 mulheres que participam, vendendo produtos como bolos, crochê e acessórios”, conta. A iniciativa promove encontros e participação em eventos, oferecendo visibilidade e oportunidade para essas empreendedoras.
Outra história que ilustra o cenário do diagnóstico tardio é a da empreendedora Raphaela Souza. Mãe de gêmeos autistas, ela começou a suspeitar do transtorno ao observar sinais no desenvolvimento dos filhos ainda no primeiro ano de vida, como atraso na fala, dificuldade de interação e comportamentos repetitivos.
“Eu procurei ajuda várias vezes, mas na rede pública diziam que era normal, que cada criança tinha seu tempo. Só consegui o diagnóstico deles aos três anos, após buscar atendimento particular”, relata.
A partir do convívio com outras famílias atípicas, Raphaela passou a reconhecer em si características semelhantes às dos filhos. “Eu sempre fui muito tímida, tinha dificuldade de fazer amigos, andava na ponta dos pés, tinha hiperfoco. Quando comecei a entender mais sobre o autismo, percebi que aquilo também fazia parte de mim”, diz.
O diagnóstico veio posteriormente, mas trouxe mais clareza sobre sua própria trajetória. Hoje, ela destaca que o maior desafio está no acesso ao tratamento e no preconceito enfrentado diariamente.
“A fila na rede pública pode chegar a três anos. No particular, é caro. E mesmo com diagnóstico, o preconceito ainda existe. As pessoas não entendem o autismo em adultos, acham que a pessoa ‘melhora’ ou deixa de ser autista”, afirma.
Raphaela também chama atenção para a dificuldade de acesso a direitos e serviços. “Muita gente acha que é só ter o laudo e tudo se resolve, mas não é assim. É burocrático, desgastante e muitas vezes humilhante”, desabafa.
Para especialistas, o aumento nos diagnósticos é um avanço importante, pois permite que mais pessoas tenham acesso ao acompanhamento adequado e possam compreender melhor suas próprias vivências. No entanto, os relatos evidenciam que ainda há um longo caminho a ser percorrido, especialmente em relação ao acesso à saúde, inclusão social e disseminação de informação.
Neste Abril Azul, mês dedicado à conscientização sobre o autismo, histórias como as de Graziele e Raphaela reforçam a importância de ampliar o debate e olhar para além da infância.
“O diagnóstico não é um limite, é um caminho para se entender melhor”, resume Graziele.



