O acesso à saúde em Itaquaquecetuba está entre os 50 piores do país. Segundo o Ranking de Competitividade dos Municípios, da CLP, esse é o principal desafio do município, que ocupa a 377ª posição entre 418 cidades avaliadas. No indicador de cobertura da atenção primária, a colocação é ainda mais baixa: 413º lugar.
A atenção básica, que deveria ser a porta de entrada do sistema de saúde, vive um colapso em Itaquá. Enquanto o município figura como o 6º pior do Brasil nesse quesito, quatro UBSs que deveriam estar concluídas há anos, seguem com obras paradas e em total abandono. Unidades que deveriam acolher a população se tornaram pontos de insegurança e um símbolo do descaso com o cidadão itaquaquecetubense.
Durante a inauguração da UBS Jardim Fortuna, em 2023, o prefeito Eduardo Boigues (PL) afirmou que concluiria as obras das cinco unidades básicas de saúde encontradas abandonadas no início de sua gestão. No entanto, quatro delas ainda continuam sem conclusão: Horto do Ipê, Parque Scaffidi, Jardim Nápoli e Jardim Zélia.
Na mesma ocasião, o prefeito criticou a gestão anterior. Segundo ele, esse é um problema herdado da gestão de um prefeito que, mesmo sendo médico, não entregou essas unidades, afirmando que faltou cuidado com a saúde da cidade. Porém, a situação permanece praticamente a mesma: apenas novos prazos e promessas em vão.

Em nota, a Prefeitura de Itaquaquecetuba afirmou que as obras da UBS Jardim Zélia foram retomadas com recursos federais. No entanto, a GAZETA esteve no local e constatou o contrário. Ao conversar com a moradora Lúcia de Fátima da Costa, a situação ficou evidente:
“O prefeito disse que iria entregar este ano, mas até agora nada. Não saiu nada e continua assim. De vez em quando vêm, retiram o mato, mas não mexem em mais nada.”
Para ela, além da dificuldade de acesso à saúde, o perigo que a estrutura abandonada representa para o bairro também preocupa. “Aqui é um perigo muito grande. Está até iluminado, mas abandonado. De vez em quando, moradores de rua invadem. Faz falta e é muito perigoso deixar essa carcaça desse jeito. Ou terminam, ou põem no chão, porque assim não dá para ficar.”
As dificuldades e preocupações são as mesmas para Adão Peretoso, que mora no Jardim Nápoli há 35 anos: “A gente está precisando de saúde. Todo mundo aqui tem que ir até o Jardim Mônica. O pessoal precisa de uma UBS no bairro. Ficam várias pessoas escondidas aí dentro, alguns ninguém sabe quem são, outros dormem e passam o dia todo. Já aconteceram várias situações aqui, até sequestro de carro: pegam o motorista e somem com ele.”
Em meio à crise na saúde, conselheiro denuncia controle político do CMS em Itaquá
A crise na saúde de Itaquá também se reflete dentro do CMS (Conselho Municipal de Saúde), responsável por fiscalizar o sistema. Segundo o conselheiro Tadeu Amaral, a situação das UBSs (veja matéria nesta página), somada às reclamações dos usuários e aos relatórios de irregularidades apresentados pela comissão de visitas, evidencia a necessidade urgente de um controle social independente.
Os relatórios de vistoria do CMS mostram que até unidades recém-inauguradas ou reinauguradas enfrentam problemas: falta de medicamentos, falhas elétricas, falta de acessibilidade e necessidade de manutenção, entre outras.
Em obras abandonadas, as denúncias de riscos à população são recorrentes, problemas que, segundo Amaral, não avançam porque a mesa diretora do Conselho, composta em parte por representantes alinhados à prefeitura, evita encaminhar as demandas à Secretaria de Saúde.
É nesse contexto que o conselheiro denuncia o que chama de “aparelhamento” do CMS pela gestão do prefeito Eduardo Boigues (PL). Em entrevista à GAZETA, ele afirma que entidades que deveriam representar os usuários criaram vínculos irregulares com a prefeitura, garantindo maioria absoluta da administração nas decisões e comprometendo a atuação fiscalizatória do órgão. Segundo ele, conselheiros que tentam apontar irregularidades sofrem pressão para serem substituídos.
Amaral afirma ainda que o ambiente de intimidação afastou a população: “O descaso, o autoritarismo e a propaganda enganosa da gestão chega ao absurdo de, em uma audiência pública na Câmara, em que o prefeito estava presente, este, em um ato de desrespeito ao Legislativo e ao povo, ordenar que a GCM retirasse do plenário uma moradora que apresentou um cartaz pedindo uma UBS em seu bairro, além de ameaçar processa-la.”
Para ele, os problemas tendem a se agravar caso a representatividade dos usuários não seja corrigida. “O gargalo já existe. Não vamos avançar enquanto o CMS permanecer como está: sem representação efetiva dos usuários e, por consequência, sem cobrança.”
Posicionamento
A Prefeitura de Itaquaquecetuba afirmou à GAZETA que “as unidades dos bairros Jardim Nápoli e Parque Scaffidi estão contempladas no orçamento do próximo ano e têm previsão de início em 2026, com investimento próprio do município”.
Em relação a UBS do Horto do Ipê, a gestão municipal explicou que “após revisão da documentação dos lotes, constatou-se que o terreno estava destinado a outra Secretaria”.
Por fim, a administração destacou que tem consciência dos desafios relacionados à cobertura de atenção primária e vem adotando medidas para melhorar o acesso da população.


