Todo e qualquer itaquaquecetubense, de nascimento ou não, que já tenha reparado na bandeira do município em que mora notou a representação de uma figura que, assim como em todo o país, teve seu nome, rosto e origem apagados na história. Em um momento de grandes debates nacionais acerca dos direitos dos povos originários, a voz de uma liderança emerge em Itaquaquecetuba lutando para que seu povo seja reconhecido como o que é: indígena, com orgulho.
O nome em questão é o do Cacique Alex Werá, do povo Kaimbé, que recebeu a GAZETA em sua casa, de tijolo e cimento, para falar sobre a vida na “aldeia urbana” e os atos diários de resistência para manter sua cultura viva, em si e nos filhos, em qualquer lugar que esteja.
Alex é um dos 494 indígenas itaquaquecetubenses, segundo o Censo 2022. Questionado sobre os números, surpreendeu e se disse contente, mas não com a quantidade, que representa apenas 0,13% da população, e sim pelo fato de existir o dado.
“Até pouco tempo, indígena no município de Itaquaquecetuba era desconhecido, só conheciam o que tem na bandeira”, explicou.
Além de Alex há outros integrantes do povo Kaimbé na cidade – inclusive muito anteriores a ele, com registros datados de 1948 –, com quem ele costuma se encontrar frequentemente para confraternizar e dançar o Toré, uma de suas manifestações culturais mais típicas.
Os encontros, de acordo com ele, são fundamentais para manter o contato com as origens, principalmente para as crianças nascidas em ambiente urbano, como sua própria filha.
Esse processo foi o mesmo feito por seu pai, que o teve já fora da Terra Indígena Massacará, na cidade de Euclides da Cunha, Bahia, de onde saiu para, assim como muitos nordestinos, buscar melhores oportunidades em São Paulo. Alex nasceu em Guarulhos, mas sempre teve a valorização de sua ancestralidade como missão, até que se tornasse Cacique, cargo que para os Kaimbé tem um significado político, e encampasse a luta pela dignidade em todo o estado de São Paulo.
Apesar de toda representatividade que tenta trazer a seu povo, ele faz questão de frisar a diversidade entre os povos indígenas, inclusive em Itaquá, e a importância de se pensar políticas que atendam a todas as demandas.
“Aqui não tem só o povo Kaimbé, tem o povo Pankararu, Wassu-Cocal, Xukuru-Kariri, Xukuru, tem muitos povos, só que precisa desse acolhimento mais produtivo, o município precisa disso. É um lugar muito acolhedor, então eu vejo que é o momento de o próprio município abranger, abraçar e respeitar a cada povo que aqui esteja”, disse.

