Rostos constrangidos, discursos pouco convincentes, clima de frustração. Foi o que se viu no encontro preparado pelo prefeito de Itaquaquecetuba, Eduardo Boigues (PL), na noite da última terça-feira (31), no Itaquá Park Shopping. Inicialmente organizado para anunciar sua pré-candidatura a deputado federal, o evento se transformou em uma declaração de desistência da disputa. No meio político, a reviravolta repentina surpreendeu e levantou dúvidas sobre os custos da decisão para o futuro político do delegado.
Para justificar o naufrágio da candidatura, Boigues alegou “o amor por Itaquá” e a necessidade de “honrar a confiança dos eleitores” que, nas urnas de 2024, o escolheram para continuar no comando da prefeitura. No entanto, a justificativa de que “a confiança do povo não deve ser traída” contradiz os movimentos do delegado-prefeito nos últimos meses. Em entrevista recente a um veículo da região, o agora ex-candidato usou o mesmo argumento para defender a candidatura a deputado.
Na ocasião, ele disse que “o que a gente tem discutido internamente no nosso grupo é que, como ex-prefeito a partir de janeiro de 2029, eu não teria tanta força para manter esse projeto de cidade junto com o Rogério (Tarento), que está dando certo. Saindo lá (em 2029) ou aqui (em 2026), aqui talvez teríamos mais condições de buscar recursos em Brasília. A população entende isso. Nós temos pesquisas que mostram que as pessoas apoiam essa saída. Eu vou colocar os interesses da cidade sempre em primeiro lugar. Se, por ela eu tiver que me sacrificar, nós vamos fazer.”
Enquanto defendia publicamente essa posição, o prefeito preparava o terreno para o anúncio da pré-candidatura. Desde a semana passada, ele vinha anunciando, autorizando, iniciando e inaugurando obras em ritmo acelerado. No dia 24 de março, a assessoria de imprensa da prefeitura enviou aos veículos de comunicação um texto intitulado “Jornada de Lançamentos e Inaugurações”, que listava dez assinaturas de ordem de serviço e nove inaugurações, iniciadas no dia 26 e previstas para terminar até o dia 30, véspera da coletiva de imprensa. O pacote de ações é típico de político em vias de deixar o cargo para concorrer a outra função.
Entendendo o naufrágio
Para entender as razões do naufrágio da pré-candidatura de Boigues à Câmara Federal, é preciso recuar no tempo até 6 de abril de 2024, quando o delegado deixa o Partido Progressista (PP) e se filia ao PL, de Valdemar Costa Neto, seis meses antes da disputa pela reeleição a prefeito. No pleito, foi o prefeito mais votado do PL e o segundo mais votado no geral da região, ficando atrás apenas do Dr. Luis Camargo (PSD), de Arujá.
A votação expressiva cacifou o líder itaquaquecetubense para buscar voos mais altos, e a disputa para deputado federal passou a ser o passo natural, construído ao longo do último ano e meio. O líder nacional do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a declarar que Boigues era um nome estratégico do partido para a Câmara Federal, com potencial de desempenho relevante no Alto Tietê e peça importante no planejamento eleitoral da legenda, chegando a defini-lo como a “chave de ouro” da sigla na região.
Nas últimas semanas, no entanto, Boigues teria feito movimentos no sentido de deixar o Partido Liberal e buscar protagonismo regional em outra legenda: o União Brasil, que atualmente integra federação com o Progressistas. Como revelou esta GAZETA na semana passada, as conversas não se restringiam a uma simples mudança partidária. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a possível filiação estaria condicionada à ocupação de um espaço de coordenação política na região do Alto Tietê.
O objetivo do prefeito, no entanto, esbarrou no descontentamento de lideranças locais da própria federação. Nos bastidores, caciques regionais dos dois partidos criticaram a forma como o processo foi conduzido, lembrando que a estrutura regional do União Brasil e do Progressistas foi construída ao longo dos anos por dirigentes e representantes que permanecem vinculados às siglas. Isso teria dificultado a chegada do delegado à federação.
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Fontes ouvidas pela GAZETA indicam que o movimento de saída, às vésperas do anúncio da pré-candidatura, também gerou desgaste na cúpula do PL, reduzindo o espaço político de Boigues dentro da legenda e afetando as condições para uma campanha competitiva. Com isso, a avaliação de disputar a Câmara Federal em 2026 perdeu força, e o cenário político do prefeito passou a depender das articulações que terá de construir até o fim do mandato.



